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Compromisso público. Essa é a mais apropriada definição para a Universidade Federal de Minas Gerais, instituição de ensino superior que, em 2017, completa 90 anos de existência. E, por que não dizer, 90 anos de excelência, de solidez, de inovação, de relevância, de transformação, de resistência.

Para comemorar seu aniversário, a UFMG preparou uma agenda que evidencia o que ela tem de melhor: o respeito à sua história e à memória de servidores – professores e técnico-administrativos - e estudantes que construíram e constroem a Instituição; a vocação para a proposição do debate e da reflexão que analisam o presente e apontam para o futuro; a valorização do ensino, da pesquisa, da extensão e da cultura, que garantem sua relevância social.

Acompanhe neste blog parte dessas histórias e visite também o site www.ufmg.br/90anos

UFMG discute o humor contra a violência na cidade

Trabalho do fotógrafo Kenji Ota, que faz uma instalação durante o colóquio. Foto: Kenji Ota

Humor em imagens fotográficas, desenhos, vídeo e áudio como resistência à violência na cidade. Esse é o objeto de discussão do seminário O humor contra a violência na cidade que até hoje reúne pesquisadores do Brasil e da França dos campos do direito,  arquitetura,  história,  letras, sociologia, filosofia e artes, além de artistas que têm o espaço urbano como palco de sua criação. Entre eles, o fotógrafo Kenji Ota, cuja instalação pode ser conferida durante o evento, e Binho Barreto, que desenvolve projetos interdisciplinares com pesquisas em desenho, fotografias e processos digitais em vários endereços da Região Metropolitana de Belo Horizonte (assista ao vídeo abaixo produzido pela TV UFMG).

O papel da música no enfrentamento da violência também pautará as discussões do colóquio. Ouça as canções que serão trabalhadas.

“A cidade é o lugar historicamente coabitado pela diferença. Com o humor, pode-se viver essa diversidade de forma aberta, superando discursos ressentidos de identidade”, afirma a coordenadora do evento, professora Myriam Bahia Lopes, nesta entrevista ao Portal UFMG.

Em linhas gerais, qual é exatamente a interseção entre as três chaves do colóquio: o humor, a violência e a cidade?

A concentração de indivíduos e a massificação na cidade geram violência. Com frequência, ela subtrai a possibilidade do indivíduo de fruir o prazer. Ninguém é feliz em um engarrafamento, apenas para citar um exemplo. O adensamento e a aceleração no ritmo urbano induzem os corpos a automatismos. As cenas de Charles Chaplin em Tempos modernos são lapidares sobre o contexto sociotécnico da cidade. O excesso de estímulo provoca o “choque”, que é uma suspensão, uma defesa do corpo diante do excesso de estímulos da cidade.

A dinâmica do humor segue no sentido oposto, pois com o humor, o pensamento, mesmo que inconsciente, é elaborado de forma a restituir o prazer ao indivíduo. Freud escreveu que o chiste gera uma economia, pois, por meio dele, é possível elaborar uma cena, um sentimento doloroso sem ter que experimentá-lo. As várias formas e linguagens do humor expressam um trabalho contra a violência, pois possibilitam um distanciamento, uma inflexão diante do que nos machucaria, antes mesmo de nos ferir. O humor incita a imaginação a criar uma resposta rápida, que lança mão muitas vezes do próprio corpo para se exprimir e libertá-los.

Myriam Bahia: humor promove condições para uma autoanálise. Arquivo pessoal

Qual a importância do humor em tempos não necessariamente marcados pela tolerância?

O humor é uma relação, e ele instaura uma abertura, um desvio, a possibilidade de romper com os laços que constituem identidades rígidas, ressentidas e reativas. Por sua capacidade de jogar com o sentido, ele induz a um deslocamento e promove para o indivíduo as condições de uma autoanálise  – tema da palestra da co-organizadora do Colóquio, Claudine Haroche –, de rir de si mesmo, de admitir com humildade os próprios limites e de mudar de posição. Em um contexto no qual impera o fundamentalismo, a censura, a hierarquia imposta pela violência e pela humilhação, a financeirização das relações, notamos que há vastos grupos que são incapazes de rir.

A cidade é o lugar historicamente coabitado pela diferença. Com o humor, pode-se viver essa diversidade de forma aberta, superando discursos ressentidos de identidade, e pensar um sujeito atravessado por várias questões e capaz de se colocar no lugar do outro antes de qualquer julgamento. O humor instaura uma imaginação que é abertura para a vida.

Como a academia e os intelectuais lidam com esse tema? 

O humor foi estudado direta ou indiretamente (riso, cômico, ironia) por grandes autores, como Bergson, Freud, Nietzsche e Baudelaire. O estudo do humor está na interseção dos campos da sociologia e história, visto que suas expressões têm um contexto social bem definido e situado no tempo. Frequentemente, ele refere-se à atualidade como na caricatura (objeto da conferência da professora Ségolène Le Men). Ele é objeto do campo das letras, das artes gráficas, da filosofia, da psicologia.

Que relação a arquitetura mantém com o humor?

A arquitetura, os arquitetos autorais e a aspiração em eternizar a obra humana são, com frequência, objeto de humor. O monumento é um tema recorrente na caricatura, tanto pelo seu grande formato, por sua imobilidade, como pelo fato do monumento estar associado aos poderosos. O humor é rebelde e desafia a hierarquia. A arquitetura se inspira no humor.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=54&v=JLoijW3QIwY

Produção e reportagem: Tayrine Vaz / Imagens: Antônio Soares / Edição de imagens: Ravik Gomes

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