Zueraaa… como tem poeira…

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“Você vai se impressionar com o que encontrará. Tudo é muito grande, digno de F-1”. Vindo de quem veio, gente com muita experiência e competência para dizer, não podia ser exagero. E não foi. Olha que agora eu posso falar com conhecimento de causa, já que, entre minhas aventuras na Copa do Mundo de Kart, em Zuera, tive a chance de ajudar a montar a estrutura da equipe ART GP, do mineiro Sérgio Sette Câmara. Carreguei pedaços de assoalho, ajeitei os tapetes sobre os quais seriam colocados os cavaletes com os karts e, em questão de poucas horas, testemunhei uma carreta se transformar no centro nervoso de uma armada multinacional.

E não foi privilégio meu, muito menos de Serginho. Mesmo o monegasco Charles Leclerc, campeão europeu da categoria KF2, não tem moleza, e colabora com toda a disponibilidade, sem se furtar a uma conversa com o jornalista para falar de suas expectativas e planos. E estamos falando de um time que estende seus tentáculos para praticamente todas as principais categorias do automobilismo mundial, mas não era muito diferente do que se via em outras fábricas tradicionais, como CRG, Tony Kart, Birel, Energy ou Kosmic. A fila de caminhões na entrada da pista era realmente de fazer cair o queixo – e o mais bacana é que há estruturas mais modestas, com um pequeno furgão e uma tendinha. Neste aspecto, o evento é democrático, tanto assim que reuniu 183 pilotos de 34 países.

Eu tinha uma ideia do quanto a briga pelas primeiras posições seria competitiva, mas ter diante dos olhos 70 pilotos reunidos no ínfimo espaço de um segundo foi algo quase inexplicável. Assim como o desenvolvimento dos carrinhos. “Sérgio, você está freando duas vezes nesta curva, e comprometendo seu desempenho em todo o segundo setor da pista. Veja como Ollie (o finlandês Ollie Pelttola, companheiro de equipe) freia uma vez só”, disse o engenheiro Francesco Parisio, mostrando os gráficos implacáveis da telemetria. No treino seguinte, vem a certeza de que a observação foi bem assimilada. Serginho era o dono da segunda melhor marca geral no mesmo setor.

E não apenas ele fez bonito, mas todos os brasileiros – Thiago Vivacqua, único representante na KF2; Vítor Baptista, sétimo na KF3, Gabriel Sereia, Arthur Fortunato e Giuliano Raucci. Especialmente para quem ainda não vive na Europa, a experiência vale mais do que uma temporada no Brasil, e olha que a escola verde e amarela na modalidade é histórica, iniciada por um “tal” Emerson Fittipaldi. E é bom ver que profissionais brasucas como Cláudio Dantas, o Sabiá, responsável pelos primeiros passos de um certo Felipe Massa e hoje preparador e parceiro de Serginho, tem suas sugestões e ideias acolhidas pelos europeus, consegue tirar da cartola soluções para tornar o kart mais rápido que nem mesmo os computadores ou a experiência dos italianos foram capazes de determinar.

Depois de quatro dias lixando o asfalto de Zuera (a pé, bem entendido), só posso tirar o chapéu para estes meninos cada vez mais maduros, que aos 13, 14, quando muito 15 anos têm de mostrar tranquilidade sob uma pressão imensa. Vi praticamente todos os treinos das duas categorias (KF2 e KF3) e não me lembro de uma rodada ou saída de pista mais séria. Claro que, quando 34 pilotos estão reunidos num grid brigando diretamente por posição, a coisa muda. Mas os comissários da FIA são implacáveis e ajudados pelas câmeras instaladas em todos os karts. O número de chassis e motores permitido é limitado e todo o equipamento é lacrado com selos holográficos e constantemente verificado. O quadro com as punições aplicadas acabou sendo pequeno, sem direito a choro.

Não faltam olheiros, ex-pilotos que venceram tudo no kart e, por necessidade ou opção, preferiram permanecer nos carrinhos, como Danilo Rossi, Ben Hanley, Sauro Cesetti, sem contar dois dos três brasileiros que conseguiram a façanha de se tornar campeões mundiais: Ruben Carrapatoso e Gastão Fráguas. E é tanta borracha na pista que alguns meninos mais animados resolveram recolher os pedaços, transformá-los em bola e iniciar uma animada pelada. Os maiores se divertiam cuidando dos karts, fazendo ajustes, torcendo pelos filhos, ou fazendo contas. O suspense se mantém até a última volta da última bateria classificatória, um ou dois pontos podem fazer uma diferença tremenda. E como estamos falando de uma competição, os alfarrábios vão registrar que os melhores foram os italianos Luca Corberi (KF3) e Felice Tiene (KF2), mas muitos dos que estavam ali podem ter sorte ainda melhor e ser os Alonsos, Vettels, Hamiltons do futuro. Será sensacional descobrir, em quatro ou cinco anos, alguns dos moleques que ali estavam voando alto, chamando a atenção, sendo cotados para substituir na F-1 os craques de hoje. Bom saber que os brasileiros podem perfeitamente estar entre eles. Como foi bom ter vivido de perto toda esta experiência. Sobre o título do post, trata-se de uma brincadeira do próprio Serginho com a música de Ivete Sangalo, já que o circuito fica no meio de uma região árida, digna do Dom Quixote de Cervantes…

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