Le Mans: história de máquinas e homens…

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Um monumento. Muito mais do que um simples desafio ao cronômetro, uma história de máquinas, superação, capacidade de dominar os elementos e desviar das armadilhas do caminho. Le Mans já foi tema de filme, motivou sonhos de torcedores e pilotos dos quatro cantos do mundo, fez a reputação de fábricas e equipes, transformou-se em obsessão de alguns e glória de outros. E o fim de semana que se aproxima marca a 84ª edição das 24 Horas, cada vez mais fortes e prestigiosas, capazes de fazer muita gente se concentrar, sem piscar os olhos, ao longo de duas voltas do relógio.

E ainda que estejamos novamente falando de uma etapa do Mundial de Endurance (FIA WEC), é uma prova a parte, que vale uma temporada, vende carros, rende bons frutos. E nela, desde 200x, está prevista a participação de um projeto que tenha algo de inovador, diferente, aponte novos caminhos. A chamada Garage 56 (por garage, entenda-se box), que mantém o nome muito embora este ano a pista da Sarthe tenha ganho cinco quatro novos boxes, ampliando para 60 o número de máquinas admitidas.

Mas o projeto deste ano nada tem a ver com as máquinas, com combustíveis alternativos ou tecnologias promissoras. Trata-se do sonho de um homem para quem não existe a noção do impossível. Fréderic Sausset perdeu os dois braços e as duas pernas vítima de uma infecção bacteriana generalizada e poderia se dar por satisfeito por continuar vivo, mas não abriu mão do sonho. Viu que, com várias adaptações, poderia comandar um carro de corrida e começou a acelerar em um protótipo CN no campeonato VDV, baseado na França. Le Mans era o sonho e, em nome dele, deu início à equipe SRT 41. De Jacques Nicolet, proprietário da Ligier/OnRoak, obteve o empréstimo de um protótipo Morgan LMP2, que recebeu motorização Nissan, mas ganhou apoio da Audi. Várias empresas se sensibilizaram com a ideia e Sausset conseguiu concretizá-la, tendo a seu lado dois pilotos sem qualquer tipo de deficiência – os experientes Christophe Tinseau e Frederic Bouvet. Lógico que a tarefa de entrar e sair do carro é mais complicada do que habitualmente, mas um bocado de criatividade e inspiração deu origem a um sistema de cordas em que o piloto é “pescado” do cockpit e levado à cadeira de rodas. E seus comandos são substituídos pelos destinados aos outros pilotos da dupla.

O resultado, como seria de se esperar, acaba sendo o menos importante, considerando a grandeza da façanha já alcançada. E o carro 84 nem sequer ficou em último entre os P2. Agora, a ordem é encarar a maratona com a mesma determinação, de forma séria e esperando que a aceitação dos demais concorrentes se mantenha. Aliás, quando Sausset estiver no comando, luzes azuis extras se acenderão no protótipo para alertar os rivais mais rápidos, que assim poderão adotar cautela extra e evitar riscos desnecessários – diga-se de passagem, considerando todas as limitações, o francês de 46 anos registrou tempos mais do que respeitáveis. É o caso de dizer que este é o primeiro vencedor das 24h’2016 antes mesmo de ser abaixada a bandeira tricolor para dar a largada ao pelotão. Que Sausset (que comanda uma fundação em que tenta lutar pela integração dos que lidam com limitações de toda ordem) e seu time se divirtam muito e tenham bastante história para contar…

sausset

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