Ciao, Sic…

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Sick, em português, quer dizer enjoado, doente, e não haveria outra palavra melhor para descrever a segunda tragédia nas pistas em uma semana, desta vez sobre duas rodas. Basta tirar a última letra e lá está o apelido pelo qual carinhosamente os italianos tratavam seu compatriota. Se Valentino Rossi era Vale, Marco Simoncelli era Sic. Depois de Dan Wheldon, já um campeão consumado, que se preparava para viver uma segunda juventude na Indy, foi a vez de um garoto de 24 anos que, a exemplo do compatriota hoje mais famoso, entrou no mundo do motociclismo chutando a porta. Não para ser mais um, mas para ser diferente. Nem venceu tanto quanto seu potencial permitiria, mas com certeza não marcou sua passagem pela indiferença. Ele era certamente mais do que a vasta cabeleira que parecia brotar tão logo tirava o capacete – os adversários sabiam bem o que representava ter a moto 58 por perto. E o caminho rumo ao topo foi na melhor tradição da terra de Rossi, Rossi pai (Graziano), Agostini, Capirossi, Cadalora e tantos outros campeões: começo nas 125cc, experiência suficiente para pular para as 250cc e, então, chegar ao topo.

Sim, Sic não era um piloto “normal”. Basta lembrar que chegou a ser jurado pela torcida espanhola ao entrar duas vezes no caminho de adversários da terra – Dani Pedrosa e Jorge Lorenzo, que praticamente abriu mão do sonho do bicampeonato com o tombo na França. Por vezes acreditava mais do que devia, e acompanhar as câmeras instaladas em sua Honda era garantia de espetáculo, ou de tombo. Mas os puxões de orelha e o maior tempo de voo com sua RCV fizeram aparecer um lado mais contido, mais concentrado, de quem finalmente conseguia canalizar o potencial da forma correta, e começaria a colher os frutos. Em 2012, teria moto oficial, como as de Stoner e Pedrosa.

Ironia do destino, Simoncelli se foi não por excesso de arrojo, por uma manobra desastrada, mas por uma conjunção de fatores que é o terror em qualquer campeonato do motociclismo no asfalto. Escorregue sozinho, saia rolando rumo à caixa de brita, sinta a dureza do piso sem ninguém por perto e pode até doer, mas não será nada tão sério. O equipamento nunca protegeu tanto, hoje macacões, capacetes, botas e luvas estão lotados de fibra de carbono e outros materiais para amortecer impactos. Mas, perca o equilibrio em meio a um pelotão e o risco de ocorrer o que se viu em Sepang é muito grande. Culpa de Simoncelli? Nenhuma. Culpa de Rossi e Edwards, igualmente nenhuma. Triste fatalidade. E se na Indy o acidente que levou Wheldon embora pode servir de divisor de águas para que situações do gênero não se repitam, nas motos pouco se pode fazer. Claro que é perigoso, arriscado, mas, se fosse a regra, e não a exceção, não se correria mais. Vai-se embora um garoto que não apenas era muito bom sobre duas rodas, mas também começava a se apaixonar pelas quatro. Chegou a visitar a sede da equipe oficial Ford do Mundial de Ralis e a fazer um teste com um Fiesta WRC, que esperava comandar no tradicional Rally de Monza, disputado dentro do autódromo, e que tem como uma das estrelas justamente o amigo e ídolo Valentino. Não deu. Sim, ele terá companhia nobre no grid lá de cima, mas ainda tinha muito o que mostrar por estas bandas. Ciao, Sic, ci manchi davvero… #58

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