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Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

Fazer acampamento com fogueira num parque é sonho ou realidade?

A chance de aproveitar a noite nos parques nos é negada muitas vezes por comodidade dos administradores (Foto: Divulgação)

Saudações, aqui é o Rotas do Explorador! Conheça também nosso canal do YouTube o Missão Carcará!

Tenho discutido muito com algumas pessoas que me procuram querendo acampar e fazer trilhas, mas não se sentem acolhidas pelos parques públicos nem dispõem de lugar para isso – não contam com amigos ou familiares com propriedades onde se permite atividades mateiras. Realmente, no Brasil o que vemos em muitas unidades é a disponibilidade dos parques se limitando ao divertimento diurno e não a outras atividades outdoor que muitos de nós gostamos de praticar.

Primeiramente é bom distinguir os conceitos das unidades. Entender o que é conservação e o que é preservação. Um espaço que tem um certo número de espécies de flora e fauna ameaçadas, formações rochosas ou valores culturais e arqueológicos raros ou vulneráveis pode formar uma unidade de preservação. Ou seja, não são todos que podem ingressar nessas áreas sem condutas específicas ou até autorização expressa. Unidades de preservação restringem vários tipos de atividades, por entender que o isolamento da natureza seja mais vantajoso que a interação humana.

Já as unidades de conservação pelo menos deveriam permitir uma maior integração da sociedade e dos meios naturais. A filosofia é de que se você pode usufruir do lugar, você gosta daquele lugar e vai conservá-lo. O primeiro problema que vejo neste modelo é que nem todas as unidades de conservação estão completamente prontas. Muitas estão formalizadas, têm um decreto federal, estadual ou municipal de criação. Mas ainda não têm uma equipe nem um plano de manejo. Esse plano é feito sob estudos que vão indicar quais tipos de atividades podem ser realizadas e quais os tipos de impactos, quais os impactos demasiadamente graves e capazes de comprometer a integridade da flora e da fauna.

No Parque Nacional da Serra do Cipó o pernoite só é permitido em lugares específicos em uma das travessias (Foto: Leandro Couri)

É em cima desses estudos que as atividades nessas unidades vão sendo colocadas em prática. Contudo, acho que a maioria dos planos de manejo é extremamente restritiva, não pondera bem o que se considera mínimo impacto, que são as atividades humanas de impactos toleráveis, mas que trazem outros benefícios, como a fiscalização dos espaços pelos frequentadores, interesse político com garantia de verbas e de segurança para essas unidades, entre outros.

Veja bem, não estou querendo sair por aí cortando árvores para fazer fogueiras, querendo fazer abrigos naturais derrubando árvores nativas. Não é nada disso. Acho que se nega coisas básicas que se bem trabalhadas podem ser benéficas a todos. Por que não acampar em locais previamente determinados, permitindo que o cidadão possa curtir a noite lá, você escutar os sons da noite, olhar para as estrelas e ter a chance de ver o céu repleto delas, o que nos é muitas vezes negado nas cidades pela grande intensidade das luzes artificias?

Quem não se sentiria grato por essa oportunidade. Mas na maioria esmagadora das unidades isso é proibido, quase um sacrilégio. Perceba, não quero aqui a permissão para acampar em qualquer lugar, abrindo clareiras para barracas ou dependurando redes em áreas sensíveis. Mas há lugares nas trilhas onde o pernoite é possível, pode ser onde as equipes de brigadistas de incêndios pernoitam ou a turma da manutenção. Uma das desculpas é que as unidades não têm dinheiro para abrir e dar manutenção nesses espaços de acampamento. Puxa vida, é só abrir vagas e fazer propaganda que vários voluntários espontaneamente doarão seu tempo para ajudar nessa tarefa, a exemplo do que já vi em várias unidades.

No Parque Estadual dos Três Picos, no Rio de Janeiro, é permitido fazer fogueiras em locais específicos (Foto: Inea)

Outro tema espinhoso é a fogueira. Entendo que um incêndio florestal pode ser um desastre ecológico e também me preocupo com isso, na minha carreira já acompanhei vários combates e vi as dificuldades e os prejuízos naturais. Mas, da forma como é feito hoje se evita incêndios criminosos? Temos fiscalização para impedir que “intrusos” acampem onde querem e façam fogo do jeito que quiserem? Não seria melhor fazer como no Vale dos Deuses, no Parque Estadual dos Três Picos em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde há uma área específica para isso, controlada, dentro do camping e com abastecimento de lenhas que caíram naturalmente na mata? Mas aqui no Brasil a ordem é proibir primeiro e depois ver se algo será feito. Como para muitos gestores a proibição acaba sendo uma cômoda solução…

A Casa de Tábuas, um dos abrigos da travessia Alto Palácio a Serra dos Alves, um dos poucos abrigos para pernoite na Serra do Cipó (Foto: Divulgação)

Há também a possibilidade de criar abrigos rústicos ou mais elaborados no meio das trilhas, como mostrei no texto da travessia do Alto Palácio à Serra dos Alves (Veja a travessia no link do meu canal do YouTube clicando aqui). O Parque Nacional (Parna) da Serra do Cipó permite o pernoite em dois abrigos que eram antigamente usados por brigadistas e pessoal de manutenção do parque. Um deles é a casa de tábuas, que fica em Itambé do Mato Dentro, e o outro se chama Currais, e era um antigo entreposto de comércio bovino no meio do cerrado. Nesses dois locais é permitido pernoite, que não é indicado no interior das habitações, apenas na parte exterior, mas que já serve como um excelente ponto de apoio local, onde você pode se abrigar para fazer a travessia, se vai lá para curtir e fotografar.

São pequenas soluções exequíveis, mas que deixam de ser feitas a gente não sabe se por falta de vontade, falta de interesse. Realmente dá muito trabalho. Realmente você vai ter imprevistos. Sempre vai ter imprevistos na administração pública. O público é imprevisível, você vai ter depredação, mas talvez no mesmo nível ou abaixo do que já está ocorrendo com as proibições em vigor. Talvez um fluxo maior de pessoas com a permissão para isso iniba as outras pessoas de fazerem vandalismo. Você vai ter mais gente observando e prezando por aquele espaço. Como nós que amamos a vida na mata e em meio à natureza não toleramos.

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