Os problemas que o aumento do colesterol não causa

Publicado em endocrinologia

[Artigo de Janaína Koenen, endocrinologista]

Em primeiro lugar, precisamos destrinchar o uso de alguns termos, que dão início a muitos equívocos em torno do colesterol. Ao se dizer que ele está “acima do normal”, por exemplo, há uma série de fatores a serem considerados. Em geral, essa expressão se refere ao colesterol LDL, considerado – por senso comum – o colesterol “ruim”.

Só que estudos mostram que apenas por volta de 20% do colesterol sanguíneo vem da dieta, a maior parte é produzida naturalmente no fígado. Ou seja, já foi demonstrado que comer mais gordura não necessariamente se traduz em ter um LDL maior. Então, a que está ligada essa fama de vilão?

Ocorre que o LDL tem sete subtipos, agrupados por tamanho em quatro classes: I, II, III, e IV, sendo apenas uma delas prejudicial à saúde, o chamado “LDL pequeno e denso”. Ele está relacionado à aterosclerose. Além de aumentar os riscos de infarto e acidente vascular cerebral (AVC), especialmente quando aparece em sua forma oxidada; o que ocorre quando há um nível alto de inflamação no organismo.

É dessa inflamação que precisamos falar. Os óleos vegetais (milho, soja, girassol) são ricos em ômega 6, a gordura inflamatória. Ela faz o oposto da gordura Ômega 3, presente no salmão selvagem, atum e sardinhas. Um estudo publicado em 2016, o Minnesota Coronary Experiment, experimentou substituir manteiga e a banha de porco por óleo vegetal de milho e margarina em um grupo de pessoas.

O resultado foi que os valores totais de LDL foram reduzidos, mas isso não resultou em redução do risco de infarto. Ao contrário, esse aumentou em 22% de morte para cada 30mg/dL de redução no colesterol LDL. Pode parecer um paradoxo, mas, na prática, o que houve foi uma alteração que exige um olhar além da simples avaliação do LDL.

Várias outras pesquisas recentes mostraram que derivados de leite, ricos em gordura saturada, não estão associados a infarto, derrame ou insuficiência cardíaca. Além disso, as gorduras saturadas são as únicas que aumentam o HDL, que é o colesterol “bom”.

Em diabéticos, já foi comprovado que triglicérides altos e HDL baixo, além dos níveis de PCR ultrassensível, são indicadores mais eficazes para predizer risco de infarto do que o LDL isolado. Sabe-se, ainda, que tabagismo, estresse e sedentarismo aumentam consideravelmente a inflamação e são fatores de risco muito mais importantes e com mais evidência que o nível de LDL isoladamente para o risco de doença cardiovascular.

Antes de fazer qualquer alteração em sua alimentação, converse com seu médico. Só ele poderá avaliar seu quadro e indicar as melhores opções em seu caso.

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