Chocante é comédia que funciona

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por Marcelo Seabra

Pode parecer exagero, ou até perseguição. Mas colocar os termos “comédia” e “Globo Filmes” numa mesma frase costuma resultar em traumas grandes, daqueles que te fazem querer “desver”, como se isso fosse possível. Por isso, a surpresa positiva com Chocante (2017) é bem surpreendente, quase inacreditável. Os envolvidos parecem ter se agarrado a uma lembrança boa de suas carreiras – todos eles as têm – e mantido isso em mente, contornando histrionices e mantendo os pés no chão.

Baseado num argumento de Pedro Neschling, que atua no longa, o roteiro de Chocante nos leva de volta ao início dos anos 90, quando o Programa do Gugu revelava os artistas que o Brasil aprendia a amar de um dia para o outro e que sumiam com essa mesma facilidade. Boy bands pipocavam pelo mundo, inclusive no Brasil: bastava ser apresentável e passar por um teste para formar uma banda dessas. Carisma vencia talento, que invariavelmente faltava aos rapazes.

A carreira desses grupos durava pouco, baseada em um sucesso apenas, daqueles que grudavam na cabeça. As roupas eram espalhafatosas, as coreografias pareciam criadas por uma garotinha de dez anos. É nesse contexto que conhecemos Chocante, a boy band que durou meteóricos oito meses, teve um gostinho da fama e desapareceu dos holofotes. Vinte anos depois, eles se reencontram pela ocasião da morte de um deles. E um retorno começa a parecer uma boa ideia.

Ter Bruno Mazzeo na produção, roteiro e atuando deve ser garantia de financiamento pela Globo Filmes. Ainda mais reunindo Lúcio Mauro Filho, Marcus Majella e Bruno Garcia no elenco. Juntos, esses quatro eram Chocante, além do falecido. A nostalgia que eles passam no dia a dia de vidas sem graça é a principal atração do longa. Sem piadas de baixo calão ou qualquer outra apelação, eles conseguem tirar humor de situações críveis, que facilmente ficariam deprimentes. Todos têm empregos distantes de glamour e tudo o que eles querem é trazer de volta alguma cor a suas rotinas.

O contraste entre os quatro “veteranos” e Rod (Neschling), o novato, é também um ponto alto. Viciado em redes sociais e egresso de um reality show de sobrevivência, Rod é o retrato de uma subcelebridade que tenta a qualquer custo prolongar seus 15 minutos de fama, mesmo que não tenha nada a acrescentar à vida de seus fãs (ou seguidores). Frases feitas e discursos vazios se multiplicam, causando estranhamento até entre seus colegas. A caracterização da época, a personalidade de cada – com pochete e tudo – e as participações especiais (vocês viram o Paulo Gustavo?) são bons diferenciais.

Para provar que a suspeita de ruindade antes da sessão era cabível, cito apenas três exemplos (dentre vários possíveis): esse, esse e esse. Isso, para ficar apenas em longas originais, sem entrar nas intermináveis sequências caça-níqueis. E originais no sentido de não serem escancaradamente baseadas em outras obras, já que eles roubam elementos com frequência. Chocante, por sua vez, faz lembrar algumas produções gringas, como Ainda Muito Loucos (de 1998, com seus anti-heróis cansados e endividados) e Ou Tudo, Ou Nada (1997, com as dificuldades das coreografias e as dancinhas fora de contexto). Mesmo assim, consegue ter vida própria e nos proporciona uma sessão agradável.

Esta é a versão jovem da banda

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Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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