O Cidadão Ilustre é o terceiro acerto da Cineart

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por Marcelo Seabra

A Cineart Filmes parece ser muito criteriosa ao escolher as produções que tem trazido ao Brasil. Agora é a vez do argentino O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre, 2016), premiado em diversos festivais, inclusive o de Veneza e o Goya. Mistura de drama e suspense com toques cômicos, o filme destrincha as relações entre moradores de uma cidadezinha e as consequências da chegada de uma celebridade que saiu de lá há quase 40 anos.

Melhor ator no Festival de Veneza, Oscar Martínez (de Relatos Selvagens, 2014) faz um personagem que se alterna bem entre a humildade e a arrogância, mostrando traços dos dois extremos quando necessário. Daniel Mantovani é um escritor laureado em vários países que ainda conseguiu a proeza de levar o Prêmio Nobel de literatura. Após se recusar a aparecer em diversas premiações, jantares, congressos e eventos mil pelo mundo, nos quais seria homenageado, ele decide aceitar o convite de sua cidade natal, a pequena Salas, a sete horas de distância de Buenos Aires.

Pouco depois de chegar à cidade, Mantovani já se recorda do porquê de ter partido. Ele morou na Europa desde seus vinte anos, quando saiu da cidade e nem olhou para trás, em busca de sua carreira. Ressentimento, situações mal resolvidas e inveja são alguns dos problemas que ele terá que enfrentar. Muitos de seus personagens refletem cidadãos salenses, e eles não costumam ser retratados de forma muito lisonjeira. Pelo contrário: Mantovani escreve sobre o pior no ser humano. E há ainda a politicagem que envolve o prefeito da cidade e os muitos compromissos previamente marcados que o escritor precisará comparecer.

O roteiro, escrito pelo igualmente premiado Andrés Duprat, não exime ninguém, nem o próprio Mantovani. Todos têm seus defeitos, suas hipocrisias, e isso vai acabar aparecendo. Duprat volta a trabalhar com a dupla de diretores e produtores Mariano Cohn e Gastón Duprat, seu irmão. Juntos, os três fizeram, por exemplo, O Homem ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (2011) e o documentário Living Stars (2014), todos projetos interessantes que provam que o Cinema argentino não vive apenas de Ricardo Darín.

Entre situações previsíveis, outras não tanto e algumas surpreendentes, O Cidadão Ilustre consegue um ótimo resultado. O drama é o gênero que impera, mas há momentos muito engraçados que dão uma quebrada bem-vinda. É no mínimo estranho ver as pessoas da cidade seguindo o escritor, e até filmando-o com celulares, como se ele fosse de outro mundo. E a tensão, quando surge, vai deixar muita gente apreensiva. O elenco, bem equilibrado, também ajuda muito, fazendo o espectador ter pena de certos moradores, mais patéticos que maus, e receio quanto a outros, que parecem à beira de fazerem algo drástico. Com mais uma obra admirável, depois de Insubstituível (2016) e Além das Palavras (2016), ficamos no aguardo dos próximos filmes da Cineart.

A equipe recebeu o Goya de Melhor Filme Ibero-americano

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Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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