Skip to main content
 -
Carlos Júnior é Bacharel em música pela Universidade Federal de Uberlândia, com habilitação em violão; mestrando em música pela mesma universidade tem como linha de pesquisa a estética e o gosto musical. É preparador vocal e instrumentista do Emcantar Cia Cultural.

Tradicionalismo anti-intelectual

Vivemos um momento histórico que ouso nominar, por hora, como “tradicionalismo anti-intelectual”. Tradicionalismo por conta de que grande parte da produção artística tem fortes raízes numa tradição antiga. E anti-intelectual por conta dessa produção ser um produto que, necessariamente, não cobra um esforço intelectual de seus receptores. Sem dúvida, esses dois aspectos forjam um produto mais vendável e rentável ao atingir um âmbito maior de receptores, ao se fazer contar entre esses, aqueles que conseguiriam absorver algo mais denso e aqueles que não. A tecnologia e a ciência têm como objetivo principal facilitar o cotidiano do ser humano e isso, infelizmente, tem afetado o desenvolvimento intelectual do indivíduo passivo – aquele que não produz conhecimento, mas apenas absorve. A tecnologia faz com que a máquina trabalhe e pense para o homem, que processe os dados e os entregue numa tela digital os resultados. A tecnologia tem formado (talvez como um efeito colateral) um indivíduo não-pensante ou um indivíduo intelectualmente preguiçoso.

No cinema, ainda se mantém os mesmos clichês de mocinho e bandido, um romance com fim previsível ou na relação entre bem e mal na qual o espectador tem a certeza de que ao final o bem vencerá. O filme, geralmente, não tem o intuito de provocar um exercício intelectual sério, mas a intenção de mostrar uma série de acontecimentos que sejam “gratuitos” e que sejam recebidos e compreendidos por todos, nivelando o grau intelectual do público presente pelo mínimo. Na música, o tradicionalismo está no uso predominante do sistema tonal que não obstante já termos em mãos outros tipos de materiais musicais o recurso tradicional tonal é ingrediente obrigatório em seja lá qual for o produto musical. E aí também se justifica o anti-intelectualismo, ao oferecer ao ouvinte algo de fácil assimilação e que não lhe cobre esforços intelectuais. Inclusive nas trilhas sonoras do cinema. Essas duas áreas se tocam e se ajudam. Música e cinema, ambos tradicionais e intelectualmente “gratuitos”.

A produção de entretenimento é a veia mais grossa e é também a mais consumida da indústria de bens culturais e mantém uma considerável distância dos princípios científicos que visam o aumento do conhecimento, em outras palavras, o ser pensante não é alvo desse jato de produção gratuita. Não que seja função da indústria de entretenimento formar intelectualmente o indivíduo, mas é nítido que (em geral) não há muitos estímulos para um exercício mental nas produções de entretenimento (o cinema por exemplo), e que o público pelo qual essa indústria se interessa pode ter um “Qi” modesto. Ao que parece a “arte popular” tem um pré-requisito para existir: que seja intelectualmente gratuita e que não se mostre muito densa aos olhos e ouvidos dos seus receptores. Obviamente o que está dito acima se refere, por conta dessa ampla gama de nichos sociais e culturais brasileiros, a uma parcela social específica e distingui-la não foi o objetivo.

 

 

Carlos Junior

Related Post

Related Post

Publicidade