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Carlos Júnior é Bacharel em música pela Universidade Federal de Uberlândia, com habilitação em violão; mestrando em música pela mesma universidade tem como linha de pesquisa a estética e o gosto musical. É preparador vocal e instrumentista do Emcantar Cia Cultural.

Em que século estamos?

Formei-me num curso de música erudita. Pude conhecer um pouco da vasta história da música, pude tocar obras de alguns distintos momentos dessa história e posso dizer com propriedade: como é fascinante a música feita no século XIX e começo do século XX. Uma música que se apresenta com rigor traje e representa bem o amplo império tonal – império que vinha sendo construído, mudado e modernizado já fazia alguns séculos. Como são palpáveis as sensações que a harmonia tonal nos proporciona. Como faz sentido e como nos é agradável, pelo menos a nós ocidentais, a resolução de um acorde dominante.

Na academia, esse é assunto primeiro e último, mediado em maior ou menor medida por um ou outro momento em que se fala, muitas vezes com alguns narizes torcidos, de outra música que não seja a tonal. É principal preocupação na véspera de alguma prova mostrar o quanto se entendeu as relações harmônicas e provar a capacidade de tensionar, afastar e volver a um repouso num determinado discurso musical. As aulas voltadas à performance, à teoria e percepção musical… todas elas tem como assunto trivial o material musical do século XIX. Isso é visível mesmo àqueles que não passaram por um curso de música erudita, ou seja, é fácil relacionar um músico que se diz erudito ou “clássico” com o repertório do período clássico-romântico. Se for apresentado a um pianista erudito você certamente poderá deduzir que ele com certeza saiba tocar um Beethoven.

Ponho aqui uma pergunta: por que ainda não conseguimos sair do século XIX?

Veneramos esse século no que diz respeito à arte. Parece que só nesse período da história tivemos verdadeiros e grandes artistas (e não foi). Pensamos, tocamos, ouvimos e estudamos o século XIX com tanto afinco que parece pouco importar a produção atual ou mesmo a do século XX – Schoenberg por exemplo. O campo da música popular tem fortes influências do século passado, até porque é seu período mais rico em produção, com a bossa, o samba e toda efervescência musical carioca. Mas na música erudita há uma forte prática museológica, (isso se estende a outras áreas, como a literatura) um apego às músicas de outros tempos, feitas por compositores de outros tempos, que pensavam e viviam um momento completamente diferente. Sem dúvida a música desse período é fascinante, mas teve seu momento, seus compositores e interpretes.

Precisamos de artistas que pensem a arte de hoje, com cabeça de hoje, refletindo a realidade de hoje. Que sejam mais autênticos e originais no pensar e fazer a música. Artistas que consigam, com sua arte, influenciar a sociedade em que vivem. Que possam, com o poder da música, formar opiniões no que tange o gosto, formar indivíduos que saibam pensar, ouvir, sentir e fazer música, fugindo tanto quanto possível das formas decadentes de produção musical industrial, que entrega ao ouvinte uma música enlatada, uma espécie de “fast-food” da arte. No que diz respeito à música, penso quão perigoso seria se pudéssemos ouvi-la de fato, talvez isso mudasse completamente nossa maneira de ver, absorver e produzir arte. A música do século XIX tem uma grande importância na história da música e também na formação musical hodierna, mas que isso sirva para nos inspirar ou mesmo nos influenciar, mas não para nos engessar.

 

 

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