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Carlos Júnior é Bacharel em música pela Universidade Federal de Uberlândia, com habilitação em violão; mestrando em música pela mesma universidade tem como linha de pesquisa a estética e o gosto musical. É preparador vocal e instrumentista do Emcantar Cia Cultural.

Cultura de massa

…o que é cultura? Ela é reflexo de quê? Quem tem a autoridade para legitimá-la?

A humanidade passou por tempos nos quais quem classificava e por consequência produzia a cultura era a igreja. Obviamente um domínio de autoridade cultural nada imparcial e pouco democrático. Os parâmetros para a composição musical, por exemplo, passavam por crivos religiosos e o que se chamava de “belo” estava estritamente ligado às questões sacras. Noutro momento, por volta de 1700, esse poder foi dado à nobreza. Que ditava, baseada em parâmetros relacionados à busca de um status social, o que se deveria compor e executar nas salas de concerto ou nos ambientes nobres. Agora, voltemos os olhos para os primeiros anos da década de 1920. Surge no Brasil o rádio. E é ele (ou quem o rege) que agora tem o poder da difusão e autoridade cultural. Isso se intensifica trinta anos mais tarde com o advento da televisão. A partir desses dois marcos históricos vemos um grande período em que a mídia dita as preferências no que diz respeito a várias áreas do cotidiano, para citar poucos temos a ética, a moda e a música. Há, portanto a continuidade de uma manipulação do gosto, e fugir desse regimento é se inscrever entre os ignorantes.

O que tem sido difundido em matéria de música pela grande mídia carrega o pressuposto de cultura legítima, e isso coloca esse material numa espécie de “vitrine cultural”. Mas quem legitima esse material? Quem diz o que é ou não produto cultural? Quem tem essa autoridade? Sim, porque ao que parece, o que chamamos de produção cultural (pelo menos em relação à música) tem se tornado uma carruagem a esmo. É preciso que se estabeleça uma ordem nos parâmetros de autoridade cultural, parecido com o que fizera Schoenberg com a composição musical erudita. Não bastasse ser absurdo aceitarmos uma cultura artificial forjada nos moldes urgentes da indústria, parece que essa linha de produção perdeu seus filtros éticos e morais. A mídia brasileira tem divulgado “produtos” que envergonham qualquer ouvinte minimamente instruído. Esse parece ser o ponto mais caótico na “história da cultura”, pois jamais se teve materiais tão grosseiros sendo colocados nessa “vitrine” da produção cultural.

A música popular brasileira é de uma riqueza e beleza admiráveis. Ritmos extremamente ricos, uma harmonia e melodia invejada no mundo todo – tome-se a bossa nova como exemplo. Mas nas últimas décadas a música popular tem sido reconfigurada por um material de péssima qualidade. O tal sertanejo universitário – que nada trás do sertanejo raiz – e o funk carioca são pobres em harmonia, pobres em melodia, pobres em ritmo e com uma letra irrisória e imoral – principalmente o funk. É isso o que tem sido amplamente divulgado pela mídia. A TV mostra em horário nobre e com entusiasmo as imoralidades contidas nas letras e a banalização da beleza feminina que, não sei como, não causam repulsa aos espectadores. Há quem possa dizer que a produção de música popular é reflexo da realidade vivida pelos agentes, se assumirmos isso, há de se fazer alguma coisa em prol de uma mudança, quer seja na linha de produção cultural – adicionando minimamente alguns filtros – ou na realidade do cotidiano dos agentes que receberam, não sei de quem, a autoridade de legitimação e difusão cultural. Toda a poética e beleza que a música é capaz de transmitir têm sido trocados por um lixo imensurável.

A música popular, já faz muito tempo, tem como característica principal ser uma música intelectualmente mais próxima do povo bem como uma música que sirva ao entretenimento. Justo. Mas o que não se justifica é essa imbecilidade contida em alguns seguimentos da música popular nas últimas décadas. Talvez isso seja mais um efeito de uma decadência moral percebida em todas as esferas da sociedade. A ganância da indústria escraviza – em estética politicamente correta – seus funcionários, e não é diferente para àqueles que se colocam a serviço da indústria de bens culturais. A ordem do dia é que se produza qualquer coisa que seja vendável. Não importando a relação que esse produto tenha com a arte, a ética e a moral.

 

Carlos Junior

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  • MarcosH.

    Uff que bom poder ler isto! O besteirol que tomou conta das ruas, festas, lares, bares e mídias empreguinou a tal ponto de fazer a gente se sentir o errado e bobo da corte, numa inversão que predomina. Em qualquer tempo houve sim o que era cultura e o que se tornaria cultura, ou seja, uma relação causa e efeito que a arte se alia espontaneamente, sem essa forçação de barra comercial chata, pobre e decadente. Obrigado, parabens.

    • Carlos Júnior

      Muito Obrigado! Que bom que gostou!

  • Jeferson Fernandes Ribeiro

    “A música popular, já faz muito tempo, tem como característica principal ser uma música intelectualmente mais próxima do povo bem como uma música que sirva ao entretenimento. Justo. Mas o que não se justifica é essa imbecilidade contida em alguns seguimentos da música popular nas últimas ‘ . Muito bom que alguem com pericia no assunto, tenha coragem de dizer o que de fato ta acontecendo!! .

    • Carlos Júnior

      Obrigado Jeferson, que bom que gostou!