Murilo Badaró, Presidente da Academia Mineira de Letras, entrevistado por Márcia Vieira

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  Entrevista – Murilo Paulino Badaró   Por Márcia Vieira   Foi ali, no famoso palacete Borges da Costa, na rua da Bahia, que guarda tantas histórias -ambos, a rua e o palacete- que encontramos o nosso entrevistado Murilo Paulino Badaró, Presidente da Academia Mineira de Letras e político com atuação destacada em todas as áreas por onde passou. Foi Prefeito, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Secretário de Estado e Ministro da Indústria e Comércio. Era tarde de quinta-feira, clima quente na capital mineira, e o script> imortal Murilo retornava de um compromisso oficial. Outros tantos o aguardavam, mas nem por isso deixou de lado a cortesia e delicadeza. É definitivamente, um gentleman. Como conhecedor de Minas, teceu alguns rápidos comentários sobre as cidades do interior e relembrou pessoas que enfeitaram o cenário político e literário das Gerais. Em seguida, nos conduziu a um salão austero, onde foi registrado o encontro. A princípio sisudo, logo se percebe emoção nos olhos desse homem de personalidade marcante, que entrou para a história não apenas pela atuação política, mas também pela dedicação às letras. É o autor das biografias de Milton Campos, José Maria Alckmin e Gustavo Capanema, todos, figuras representativas na política mineira e nacional, tanto quanto o autor. Murilo Badaró expôs a sua indignação com o modo de fazer política atual, falou da saudade de seus contemporâneos, da participação feminina na Academia, cujo centenário é comemorado neste ano de 2008, e não poupou críticas ao Ministro Temporão (José Gomes Temporão, Ministro da Saúde), a quem chama de “falastrão”. E foi pelo binômio política/literatura, que iniciamos o bate-papo. Confira:     MV: Sr. Murilo, qual a relação e qual a sensação de unir política e literatura?   MB: Não é bem união de política com literatura, é a literatura predominando sobre a política, mas de qualquer maneira, as duas coisas nunca estiveram separadas. Durante todo o tempo em que estive na política, eu cuidei muito da literatura, me aprimorando, lendo, buscando os melhores autores brasileiros e internacionais. Esse casamento sempre existiu, e vai continuar por aí afora, com a predominância agora, mais da literatura do que da política. script>     MV: O senhor tem publicado biografias. Existe preferência por este tipo de escrita?   MB: As biografias que eu tenho escritas são de três grandes mineiros: Milton Campos, Gustavo Capanema e José Maria Alckmin. Eu diria que elas foram feitas por encomenda, para atender a pedidos de Fundações (Milton Campos e José Maria Alckmin) e Banco de Desenvolvimento (Gustavo Capanema). Eu estou trabalhando numa biografia, que é do famoso Chico Campos (Francisco Campos, jurista e ex-Ministro da Educação e Saúde no governo Vargas), mas essa é por minha alta recreação. Estou sendo sondado para mais duas biografias de dois grandes mineiros, que por ora prefiro não revelar.     MV:  O senhor veio de família de políticos, mas como se deu a sua entrada na área?   script> MB: Bom, eu sou de uma família de políticos.  Meu pai foi Deputado Federal, foi prefeito de Minas Novas, foi Deputado Estadual, Ministro da Justiça, e eu quando estudava Direito, estava envolvido nesse meio. Tão logo me formei, eu fui para Minas Novas. Em 1958, fui eleito pela primeira vez Deputado Estadual. Não mais cessei esta atividade, até quando deixei o Senado Federal, em 1986. Mas realmente a minha atividade política foi durante o curso universitário. Participei intensamente da política universitária, dos concursos de oratória da faculdade, enfim, atividade de quem realmente gosta deste tipo de ação permanente que é a atividade política.   MV: Qual a maior lembrança que o senhor tem desse período?   MB: Olha, eu tenho uma lembrança dramática, que foi talvez o meu maior momento parlamentar. Foi quando dois dias antes da cassação do mandato de Juscelino, eu percebi que o fato iria ocorrer, e pronunciei um discurso na Assembléia que ficou famoso com o titulo de “Protesto de Uma Geração”. Um discurso marcado pela coragem, pela firmeza de ponto de vista. Poderia ter me custado a carreira política, mas eu acho que foi uma atitude de tal nobreza, que os próprios militares que cassavam mandatos por qualquer coisa, preservaram o meu, em respeito a uma posição assumida com grande dignidade. script>   MV: O senhor tem saudade?   MB: (emocionado) Quem não tem saudade? Saudade de tudo, não é? Daquele tempo em que a política era uma atividade séria, correta, saudade dos companheiros, os grandes vultos que passaram pela minha frente. Saudade de Juscelino, por exemplo, com quem eu convivi muito. Saudade do Clóvis Salgado, com quem eu trabalhei no Palácio. Saudade de Israel Pinheiro, de quem eu fui secretário. Tenho saudade de muita gente, de muitas pessoas que enobreceram a vida política mineira. Saudade também das visitas que eu fiz a Montes Claros. Fiz muitas serenatas em Montes Claros. Tinha grandes amigos lá. Todas às vezes que íamos a Montes Claros, nós tínhamos algumas tertúlias músico-literárias. Todas essas coisas, ao relembrá-las, nos deixa com certa dose de saudade.   MV: Faça um paralelo entre a política nos dias atuais, e a daqueles dias, quando o senhor participava ativamente.   script> MB: Talvez a maior diferença seja a perda da dignidade. A política está perdendo, gradativamente, a sua dignidade. Esta é a grande diferença.   MV: Os partidos tinham ideologia e hoje não tem?   MB: Os partidos tinham princípios. Eles eram mais sólidos nas suas posições, mais firmes nas suas convicções. Hoje os partidos são meras estações de passagem. As pessoas não respeitam e a lei permite que se faça essa “ciganagem” política. Infelizmente os partidos desapareceram no Brasil.   MV: O senhor foi Ministro da Indústria e Comércio. Qual a sua avaliação daquele período?   MB: O governo militar do Presidente Figueiredo foi marcadamente um governo de grande prosperidade.  E no caso do Ministério da Indústria e Comércio, sobretudo no período que exerci, vou te dar um dado: peguei a Açominas, que estava sucateada, e por ordem do presidente Figueiredo ( script> João Baptista de Figueiredo), fizemos a inauguração, um ano depois da minha entrada no Ministério. Para Minas Gerais, foi um período muito rico e farto de realizações o Ministério da Indústria e Comércio no meu tempo.  Fizemos do café, a mais fulgurante das atividades econômicas do Brasil, naquela época, naquele período de 1984, quando nós eliminamos aquele chamado “núcleo”, que tinha o privilégio de exportar café, e abrimos para centenas de outros produtores que acorreram ao mercado, dando um grande impulso ao café. A Usina Siderúrgica de Tubarão, eu inaugurei, a Açomimas, já citada, que foi a mais importante realização do meu período… Fortalecemos a Usiminas na área da siderurgia. Foi um período realmente muito rico!   MV: O senhor certamente é ídolo de alguém na política. E Murilo Badaró tem ídolos?   MB: Olha, eu tive, mas diria que  por períodos. Tive Rui Barbosa, no meu tempo de estudante. Depois, num tempo em que eu lidava com música lírica, tive Verdi, Puccini (Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini, ambos compositores italianos de óperas, dos séculos XIX e XVIII, respectivamente). Na política tive Juscelino (Kubitscheck), tive o velho PSD Israel (Pinheiro). Estes foram os meus ídolos. Dos mais recentes, tenho como ídolos o saudoso Papa João Paulo II, com quem eu tive a oportunidade de travar relações quando o visitei em Roma, e este Papa Bento XVI que acho uma figura exponencial. script>   MV: Para o senhor, o que significa escrever?   MB: É uma forma que você tem de manifestar seus pontos de vista, suas opiniões, formular algumas idéias.  Eu escrevo nos jornais, porque acho que é preciso, primeiro, sair um pouco da mediocridade que tem prevalecido muito nesse dia-a-dia da imprensa. Em segundo lugar, para colocar pontos de vista que eu considero da minha geração.  É muito importante isso.   MV: Além de escrever para jornais, o senhor mantém um blog que atualiza quase que diariamente. Vale a pena esse tipo de comunicação?   MB: O blog é uma experiência interessante. Eu gostei muito, e ali você faz as coisas sem qualquer tipo de censura, sujeito à avaliação crítica de milhares de pessoas. Ali você se expõe, se desnuda, do ponto de vista intelectual, do ponto de vista político. É uma coisa muito boa. Eu gostei muito da experiência script>   MV: E ao se expor, está disposto a aceitar as críticas?   MB: Sim, ele é aberto. Eu aceito todas as críticas que aparecem lá. Mas como eu havia timbrado a minha ação no sentido de criticar, de vergastar as coisas erradas que estão por aí, a rigor, todo mundo pensa a mesma coisa. Não tenho encontrado ainda restrições.   MV: O senhor é presidente da Academia Mineira de Letras, e além da literatura, tem gosto apurado pra música. Mais alguma outra coisa que o Murilo Badaró aprecia?   MB: O que eu gosto mesmo é de ler.  Estou sempre lendo os grandes autores. Também gosto muito de ópera. Fui muito ligado à ópera. Nessa altura da minha vida, posso dizer que é a leitura mesmo, com muita poesia. Eu gosto muito de poesia… Leio sempre os grandes poetas. São os prazeres que eu tenho. script>   MV: O senhor acha que os políticos de antigamente tinham mais conhecimentos que os atuais? Hoje é mais fácil ser político?   MB: Hoje você tem de todo tipo, não é? Mas provavelmente, os de antigamente eram mais sérios… Ao menos isso. Pode ser que existam hoje, homens mais bem preparados, de cultura mais ampla, mais universal, mas com relação à seriedade, não. Os antigos eram mais sérios. Os políticos do meu tempo eram mais sérios.   MV: O senhor fez um comentário no blog e eu tive a oportunidade de ler, a respeito da campanha do ministro Temporão (José Gomes Temporão, Ministro da Saúde) tratando do tema carnaval. O senhor diz que ele deveria fazer outra coisa, ao invés de propagar o uso do preservativo. Fale sobre isso.   MB: Eu acho que é um deboche. Um deboche, fazer esse tipo de propaganda na televisão. Evidentemente o governo não pode impedir que as pessoas usem o preservativo, mas oficializar? É aquilo que eu disse: se chega uma pessoa de fora e vê uma autoridade oferecendo uma camisinha a um cidadão, vai dizer que isso aqui é um bordel, não é? A impressão que se dá é essa. O comentário é só quanto a esse aspecto. Eu acho que o governo não tem seriedade nenhuma nessa área. Eu considero o Ministro Temporão um falastrão. Ele fala muito…. Quando morreu aqui em Minas a 13° pessoa, de febre amarela, ele declarou que “não tem febre amarela”. Quer dizer, faz um barulho todo e não a parte essencial da saúde. script>   Veja no Norte de Minas, onde tem gente morrendo de verminose e todas essas coisas, por falta de assistência na saúde. Aqui em Belo Horizonte tem fila de ambulâncias do interior diariamente, trazendo gente doente.  A saúde está em colapso no Brasil, e o Ministro fazendo propaganda de camisinha. Esse é que é o problema. Eu não tenho nada contra a camisinha ou a propaganda em si, mas é dar a ela um relevo que ela não merece.   MV: A imagem do Brasil, “vendida” para o exterior, ainda é essa de que no país não existe seriedade?   MB: Eu acho que é. Infelizmente, é! Eu acho que a imagem do país, é muito ruim fora daqui. Claro que existe a imagem simpática do futebol, das mulheres bonitas, da música… Mas do ponto de vista do extrato fundamental da vida, eu acho a imagem do Brasil muito ruim.   MV: O que o emociona?   MB: Nessa altura da vida não são muitas as emoções não ( script> risos)… Mas certamente a beleza me emociona, a poesia me emociona, a música… Mas não mais do que isso. A vida nos ensina a receber os impactos quase com certa naturalidade, mas certamente não há quem não se emocione com um espetáculo da natureza, como por exemplo, o amanhecer… Isso me emociona!   MV: Sr. Murilo, o que é , para o senhor, a felicidade?   MB: Olha, se eu pudesse transformar isso numa palavra (pensativo)…. Felicidade é querer bem aos outros e também ser querido pelos outros. Essa é uma forma de ser feliz.   MV: Uma palavra ou uma frase para definir política:   MB: Servir bem ao povo… Isso é que é a verdadeira política.   script> MV: E amor? É sofrimento?   MB: Tanta gente já sofreu por isso, não é?  Mas amor é prazer também. O segredo do amor é você transformá-lo sempre em prazer, nunca em sofrimento.   MV: Quem é Murilo Badaró?   MB: Sou um cidadão comum, um homem que fez uma carreira política com certo êxito, não tenho ambições materiais, sou um homem de classe média, e acho que deixo com a minha geração, um patrimônio moral acentuado, e pra minha família, um nome honrado. Basta isso. Não é preciso mais.   MV: O senhor se sente realizado?   MB: script> Não. Totalmente, não. Mas, em grande parte, sim.   MV: Como é fazer parte da Academia (Mineira de Letras), hoje?   MB: É o destino. É o destino, e hoje aliado a uma missão: fazer da Academia um instrumento de divulgação das letras e da literatura brasileira. Acho que precisamos cumprir essa missão.   MV: A Academia está comemorando 100 anos. Qual é a programação?   MB: Recentemente começamos a elaborar a programação, em Juiz de Fora, onde ela foi fundada, e terminando aqui em Belo Horizonte, ano que vem. Estamos trabalhando pra se ter uma forma variada de programação.   script> MV: Comemorações até o ano de 2009?   MB: Em 2008 nós comemoramos o centenário de morte de Machado de Assis, de nascimento do Guimarães Rosa e também do Guilhermino César que foi um grande poeta da Academia Mineira de Letras, e que morreu no Rio Grande do Sul. Estas são as três grandes comemorações deste ano.   MV: Quem é o grande escritor mineiro?   MB: O Antônio Cândido (escritor) acha que é o Cyro dos Anjos, seu conterrâneo (da repórter). Eu também acho que ele é o maior de todos, mais até do que os mais famosos. Mas de qualquer maneira, você pode dar a Guimarães Rosa, uma posição de realce, pela literatura nova que ele criou. Mas de toda essa classe, eu acho que o Cyro dos Anjos é o maior.   MV: Todos os membros da Academia merecem realmente, o nome “imortal”? script>   MB: A “imortalidade acadêmica” é uma coisa interessante. Por que são chamados de imortais? Porque toda vez que há um processo de substituição eles são lembrados. Quer dizer, não morrem nunca, não é? Esse é o sentido da imortalidade acadêmica. Entra um acadêmico substituindo outro, ele fala em nome de todos, desde o fundador ou desde o patrono da cadeira até aquele que está sendo substituído. Então, nesse sentido, todos são imortais.   MV: Tem mulheres nessa Academia?   MB: Temos três mulheres: Elizabeth Rennó, Yeda Prates (Bernis) e Maria José Queiroz, todas, por sinal, de grande categoria.   MV: Apenas três mulheres. A Academia é machista?   MB: script> Não, não (longa pausa)… É que nem sempre se encontra mulheres disponíveis para disputar as cadeiras. Agora, faleceu um homem e nós colocamos uma mulher, a Ieda Prates. Não tem nenhuma regra específica sobre isso, e nem a Academia é machista.  Não é! Essas instituições clássicas tendem a fazer restrição à presença de mulheres, mas hoje não tem mais disso. Acabou. Tanto, que quando há vaga aqui, sempre se lembra da Adélia Prado, da Letícia Mallard, da Ângela Gomes, e assim por diante.  Não tem sentido mais ser machista, porque as mulheres estão em maioria, inclusive na população.   MV: O senhor poderia citar uma grande escritora mineira?   MB: Henriqueta Lisboa, que foi nossa companheira da Academia e grande poeta. Das vivas, temos a Letícia Mallard, Adélia Prado, a própria Maria José Queiroz, que hoje é uma ensaísta de grande prestígio, inclusive no exterior.   MV: O que é uma crônica?   MB: Você transforma um artigo sobre uma determinada matéria numa crônica. A crônica é tudo aquilo que nós achamos que é crônica, como bem disse o Fernando Sabino. Nós mesmos fazemos essa definição do que queremos que seja uma crônica.   MV: Belo Horizonte é uma cidade rica de intelectuais? O senhor diria que existem muitos que não são conhecidos?   MB: Eu não creio que o movimento intelectual de Belo Horizonte esteja à altura da tradição dela. Houve um decréscimo nessa atividade. Já tivemos mais. Talvez não seja bem isso, talvez exista menos visibilidade que antigamente, entendeu? A cidade cresceu muito e diversificou suas atividades. Você imagina, por exemplo, no tempo da rua da Bahia, em que os quatro, apenas os quatro: Otto (Lara Resende), Paulo Mendes Campos, o Hélio Pellegrino, e o Fernando Sabino(os quatro escritores, grandes amigos, foram apelidados de “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, na década de 40), deram a Belo Horizonte extraordinário realce. A cidade quintuplicou de tamanho e houve uma pulverização. A cidade, eu não diria que é menos afeiçoada à cultura, apenas a popularização das coisas é que diminuiu o prestígio da intelectualidade mineira. Foi isso.   script> MV: Qual o recado para os leitores de Montes Claros?   MB: Montes Claros é uma cidade pela qual tenho uma grande admiração. Não gosto que a chamem de Moc, porque eu quero que ela continue a ser Montes Claros, cidade admirada e querida do Brasil inteiro.   MV: E quando o senhor pretende ir a Montes Claros?   MB: Na primeira oportunidade que tiver. Vamos criar uma oportunidade (risos). Muito obrigada pela presença aqui (Belo Horizonte) e pela entrevista. É, para nós, uma grande honra esse contato.     * Entrevista concedida à repórter Márcia Vieira, na sede da Academia Mineira de Letras, em Belo Horizonte, pelo ex-senador e presidente da Academia, Murilo Paulino Badaró. script>

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