Você sabe com quem está falando?

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Roberto Da Matta, antropólogo e um dos intérpretes do pensamento social e político brasileiro, observa em seus estudos que as relações político-sociais no Brasil estão profundamente marcadas por uma “ética dupla”. O que isso quer dizer? Que no Brasil temos um conflito em que o “moderno” (ou seja, a necessidade de decisões isonômicas e universais – o que é impessoal) se choca radicalmente, com o tradicional (com o impulso – pessoal – marcado pela simpatia, pela amizade, pela família, pelos “amigos” que estão, como bem observa Da Matta, “acima da lei”). Essa ambiguidade é o que permite o emprego da famosa frase: “você sabe com quem está falando?”. Esse é o dilema que enfrenta a sociedade brasileira: compreender a duplicidade constitutiva do cálculo duplo, isto é, perceber como o universo “da casa” invade o espaço público.

Essa ambigüidade pode ser observada no “poder à brasileira”. Os poderosos, as elites, “tudo podem”. Neste sentido, Da Matta pergunta: “para que inventar essa chatice de ética quando as pessoas desfrutam de seus pistolões, títulos ou são de partidos apropriados?”. É indispensável, portanto, para entendermos o “poder à brasileira”, compreendermos a “visão que as elites do poder têm de si mesmas e do meio social onde atuam” (Da Matta, 2001).

Li uma reportagem no Jornal Estado de Minas, deste domingo, 14, dia dos pais, intitulada “Festa no Coração Eucarístico termina com adolescentes apreendidos neste sábado”. Segundo a matéria, “uma festa com consumo de bebidas alcoólicas e presença de menores (sic) deu trabalho à Polícia Militar e aos comissários do Juizado da Infância e da Juventude no começo da noite do sábado, 13/08. Eles compareceram à Rua Professor Florestan Fernandes, no Bairro Coração Eucarístico, na Região Noroeste de Belo Horizonte, onde cerca de dois mil jovens participaram do Carnacoréu (Carnaval do Coração Eucarístico). Garotos e garotas de 15, 16 e 17 anos faziam uso excessivo de cerveja, vodca e outras bebidas e foram apreendidos. Os policiais foram chamados por vizinhos, incomodados com a bagunça e o som alto. Em pouco mais de 30 minutos, 20 menores (sic) foram apreendidos consumindo bebidas alcoólicas. O que me chamou a atenção na matéria jornalística foi a seguinte frase: “muitos adolescentes ao serem apreendidos nessa situação gritavam e ameaçavam os comissários, dizendo ser filhos de delegados e de promotores de Justiça”. Em outras palavras queriam dizer: vocês sabem com quem estão falando? Somos filhos de gente poderosa. Estamos acima das leis…_____Observações: – Ao invés de “menor” prefiro utilizar a expressão “criança e/ou adolescente”.- Por falar em Roberto Da Matta, o antropólogo fará palestra na PUC Minas na próxima sexta, dia 19, a partir das 9 horas da manhã.

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