Reflexões sobre a tragédia no Realengo (*)

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Frente à barbárie que ceifou a vida de 12 crianças, na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, para além da comoção e da indignação, é preciso reflexão e ação…1. A vulnerabilidade das escolas: Infelizmente, não é o primeiro caso de ataques com mortes em escolas no Brasil. Nossas escolas são altamente vulneráveis. A maioria não possui medidas de proteção básicas, como por exemplo, a presença de um porteiro para controlar suas entradas. Armas de fogo têm sido apreendidas com freqüência dentro das escolas brasileiras. 2. Em relação ao matador: Trata-se de um perfil doentio, ou seja, um tipo de doença que produz severo transtorno do funcionamento cerebral e que é difícil de ser diagnosticada. Porém, desde que devidamente acompanhados, esses indivíduos, portadores de certas psicopatias, podem conviver normalmente na sociedade. Nesse caso, pelo que foi divulgado até agora, o rapaz tinha uma série de desvantagens familiares e no convívio social, além de histórico de violência na família e no ambiente escolar. Essas desvantagens, associadas a este tipo de perfil, ao isolamento social, a pouca vigilância e acompanhamento, provavelmente corroboraram em condições objetivas para que planejasse e executasse sua “missão”.  3. Comparando com episódios nos EUA: O que há em comum nos dois países é a imensa disponibilidade de armas de fogo e munições disponíveis à sociedade. Neste sentido, os poderes públicos têm responsabilidade pelo descontrole do armamento em poder das pessoas. Infelizmente, compram-se armas ilegais com muita facilidade, em qualquer grande centro urbano. Armas disponíveis e sem controle são o estopim para todo o tipo de violência. 4. A escola e a violência: o episódio no Rio não está relacionado às características do que denominados “violência na escola”. Mas é oportuno refletir sobre a questão. A escola não está isolada do contexto de violência social. Não podemos defender a idéia segundo a qual as escolas devem se tornar um apêndice, descolada ou apartada da sociedade. Aliás, todas as pesquisas sobre violência nas escolas apontam que quanto mais isoladas da comunidade, dos pais, de seu entorno, mais vulneráveis ficam as escolas. Ações simples que aproximam as famílias e as comunidades do ambiente escolar, como a abertura da escola para atividades comunitárias, reuniões de bairro, festejos, etc. constituem-se como importantes mecanismos de diálogo da escola com a comunidade, refletindo em significativas melhorias, como a diminuição da violência, nesses ambientes. À medida que a comunidade se apropria da escola, há uma relação de reciprocidade, aumentando a coesão social em torno da instituição de ensino, ampliando, inclusive os mecanismos de vigilância informal – indispensáveis para um ambiente mais seguro. Leia mais sobre o tema da violência na escola neste blog, no link: http://www.dzai.com.br/robsonsavio/blog/conversandodireito?tv_pos_id=72774 5. Nosso modelo educacional: O diálogo entre professores e alunos, alunos e direção escolar, educadores e comunidade ainda é tênue e marcado por imposições e lugares sociais muitas vezes distintos e excludentes. Por outro lado, educadores estão muito preocupados com uma educação conteudista e esquecem que o processo educacional deve-se fundamentar também nas discussões acerca das relações sociais, de civilidade, da paz, da urbanidade e da solidariedade humana. Muitas vezes o ambiente escolar é permeado por exclusões, discriminações e todo o tipo de violência simbólica. Certamente, nesse tipo de ambiente a prática de violências, de várias ordens e intensidade, se naturaliza. Nós, educadores, precisamos repensar o papel social da escola, na sociedade contemporânea, no sentido de sua responsabilidade na construção da solidariedade e da paz. Não adianta formarmos pessoas altamente capacitadas para o mercado de trabalho, mas incapazes de se relacionarem uns com os outros. Neste sentido, as bases positivistas e pragmáticas nas quais estão assentados nossos modelos educacionais deveriam ser repensadas. 6. Novos papéis para os profissionais da educação: Não podemos pensar que a escola é a única responsável por resolver todos os males sociais, atribuindo-lhe uma função redentora, ou salvadora. Mas certamente, a comunidade escolar precisa ir além do “feijão com arroz” que é oferecido aos estudantes, ou seja, uma educação meramente formal, longe de dialogar e problematizar os grandes dilemas que enfrentam nossas crianças, jovens e famílias no seu cotidiano. Essa educação que não discute a dinâmica da vida, que desconecta teoria da prática, que não dialoga com os dilemas juvenis e não dá conta da nossa complexa realidade social. Assim, a escola precisa adotar novas e criativas metodologias que possibilitem um diálogo mais intenso e sincero com os estudantes e seus familiares. Esse tipo de prática poderia redundar não somente na proteção e defesa dos alunos e professores, mas fundamentalmente numa educação preocupada não somente com a independência financeira dos indivíduos, mas também com as responsabilidades que todos temos na construção de uma sociedade pacífica, onde há espaço para as diferenças e onde a convivência respeitosa seja um valor fundante das relações sociais. 7. Onde estão as falhas? Nossa sociedade sempre busca um bode expiatório para justificar e purgar suas culpas. Eleito o “bode” e passado o problema, tudo cai no esquecimento à espera da próxima tragédia. Esse tipo de resolução dos problemas que simplifica os dramas humanos e sociais, não resolve os dilemas, como a violência crescente – porque não busca suas origens e as formas de sua superação. Certamente, não se podem apontar culpados nesse tipo de evento. Mas a associação de várias falhas podem ter facilitado a ocorrência do lamentável episódio. A ausência de mecanismos de controle de quem entra nas escolas, repito, é um ponto que precisa ser discutido. 8. Sociabilidade violenta: a sociabilidade violenta é uma construção social. Ou seja, para além de alguma tendência pessoal à violência, o mais importante é analisarmos como a violência, a morte, o aniquilamento do outro tem se naturalizado em nossa sociedade. São quase 100 mil mortes por causas externas por ano, no Brasil. Isso é uma terrível guerra não declarada. Não há comoção, nem indignação, em relação às barbaridades cotidianas que ceifam milhares de vidas nas favelas, no trânsito, nas motivações banais, como por exemplo, em discussões simples que terminam em tragédias. Há um imenso arsenal de armas letais nas mãos das pessoas, sem nenhum controle. A lógica individualista se impõe à civilidade. As relações urbanas são permeadas pelo sentimento de competição e destruição ou aniquilação de tudo aquilo que impede uma busca frenética pelo sucesso individual e a qualquer custo. É preciso pensar sobre isso. É preciso que a nação se debruce sobre as causas dessa onda colossal de violência para que ações do governo e da sociedade possam reverter essa situação. Que tal um pacto nacional pela paz? 9. O papel da família: a família é o lugar da proteção, do cuidado, da educação para a vida, mas também do controle, dos limites e das regras. Nesse sentido, as famílias têm papel estratégico na formação de uma sociedade pacífica ou violenta. (Claro que muitas famílias também são o “lugar” de todo o tipo de violência, principalmente contra crianças e isso é um problema social).Porém, na sociedade pós-moderna a família, assim como a escola, está fragmentada e quase impotente frente aos novos desafios impostos pela lógica do consumo, do prazer a qualquer preço e da felicidade clamada como realização individual, não coletiva. É preciso que políticas públicas inclusivas sejam pensadas especificamente para as famílias, principalmente para os segmentos mais vulneráveis, garantindo mecanismos de proteção e vigilância em benefício de nossas crianças e adolescentes.(*) parte deste texto está publicado no Jornal Folha de São Paulo, de 11/04/2011, página C3, sob o título “As escolas são altamente vulneráveis, diz pesquisador”.Participe você também com comentários sobre a tragédia na escola do Realengo, no Rio de Janeiro.

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