Perversidade, religião e poder

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Há muito tempo venho pensando sobre alguns tipos de comportamentos. Refiro-me a pessoas que distorcem a verdade constantemente, com grande naturalidade, usando do discurso religioso ou das instituições religiosas para se afirmarem moral e socialmente. Usam da falsidade de forma indevida, dissociando o fato do seu verdadeiro sentido. Não quero aqui tratar exatamente da perversão no sentido psicanalítico: para Freud, a perversão é o desvio do objetivo sexual, resultando na impossibilidade da vivência da genitalidade. Minha reflexão está circunscrita a alguns mecanismos perversos usados por indivíduos em instituições religiosas, que utilizam de símbolos e crenças para se manterem no poder a qualquer custo; em quaisquer circunstâncias.  Por que tratar da relação entre perversidade e instituições religiosas? Porque o discurso radical religioso, que segrega e estigmatiza, parece ressurgir… aos poucos, mas com força.  Portanto, ao tratar do tema da perversão associada à religião não me interessa, neste post, entrar na questão específica da sexualidade. Mas é óbvio que existe uma visceral relação entre a perversidade religiosa e a castração sexual. E admito que, provavelmente, o gozo do perverso desvia-se da vivência da sexualidade, pois a curtição está no resultado dos atos (perversos). Quero me referir a um discurso e a práticas que combinam o sujeito perverso, algumas práticas religiosas e determinadas instituições (religiosas). Resumindo numa frase: aqueles discursos e práticas religiosas que são sintetizadas na expressão “somos do bem; podemos tudo”. Antes, um parêntesis: a religião pode ser uma forma positiva do “ser e estar” no mundo. Portanto, a princípio, penso que a fé e as práticas religiosas podem ser muito saudáveis. Feita esta ressalva, voltemos à reflexão. Segundo Contardo Calligaris, a montagem perversa ocorre entre dois sujeitos: neurótico mais neurótico ou neurótico mais perverso, juntos no mesmo fantasma, numa tentativa de chegar a uma modalidade de gozo. Alguns líderes perversos que atuam em instituições religiosas montam um séquito de puxa-sacos das mais diversas modalidades. Eles se aninham nessas organizações formando uma rede de relações de autoprotecão. Assim, existem os bajuladores que são interesseiros. Eles conhecem bem a tara do dirigente perverso pelo poder e estão sempre do lado daquele que está no lugar mais alto. Mas existem também os bajuladores beatos – aqueles que acreditam que o chefe é um mensageiro divino; que estar do seu lado é ficar do lado do bem, mesmo praticando qualquer ato de indignidade. O discurso perverso religioso justifica e ratifica os maiores despautérios: tudo é possível. Não há regras, nem limites; a moral e a ética têm sentido próprio cuja interpretação é privativa do grupo, por delegação divina. Afinal, é o discurso do bem. Em tempos de liberdade e autonomia social e pessoal, os perversos que se apropriam do discurso religiosos sentem-se altamente vulneráveis. Incrustados em algumas organizações religiosas, não permitem qualquer diversidade; têm medo do diferente... Por isso, não pestanejam os olhos quando percebem quaisquer discursos que desnudam seus conchavos. Usam das instituições, via discurso como ato de fé, para submeterem as pessoas; controlá-las e manipulá-las.  Antigamente, usavam  como mecanismo de punição as pragas condenatórias – suficientes para aniquilar o outro. Com a modernidade, o véu da obscuridade caiu o discurso baseado no medo não funciona mais.  Mas o prazer do perverso que se associa à religião é a busca insana pelo poder. Poder que demanda bajulação.  Além do séquito institucional, buscam bajuladores poderosos, em outras esferas sociais, visando o reconhecimento e afirmação social. Por isso, é muito comum a relação estreita entre poderosos de várias instâncias de poder.              Fiquemos atentos. Parecem multiplicar aqueles que usam da religião para conseguirem poder, status e reconhecimento.     

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