Mídia e formação da opinião

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Uma das “pedras de toque” do bom jornalismo sempre foi – e continua sendo – a busca da imparcialidade e da isenção. Profissionais comprometidos com a ética e a verdade lutam por uma imprensa verdadeiramente cidadã e cumpridora dos ideais democráticos: a defesa da liberdade e da justiça.À medida que o poderio econômico foi dominando a mídia e os “profissionais da pena” deixaram de ser ícones da verdade (muitos se transformando em marionetes dos patrões), presenciamos uma incestuosa relação no universo da comunicação: parte do jornalismo subjugado às conveniências do grande capital, conformado aos interesses econômicos dos grandes oligopólios midiáticos, que determinam o que deve ser pautado e publicado (melhor dizendo, publicizado — dado que o jornalismo tem se transformado em mercadoria).As grandes redes de comunicação, as poderosas agências noticiosas, os grandes conglomerados da imprensa determinam o que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião pública. Precisamos, urgentemente, de uma reforma agrária do ar; uma invasão às capitanias hereditárias dos barões da mídia brasileira.Há muito se questiona a isenção e a imparcialidade dos meios de comunicação. Por um lado, em virtude das relações imbricadas e promíscuas que envolvem os donos dos veículos (muitos dos quais, editores de suas empresas de comunicação); por outro, pela fragilidade de parte de seus quadros profissionais, subjugados (e impotentes) frente às determinações patronais. Quem perde com essa situação é a democracia, que deixa de ter na imprensa o contraponto às mazelas sociais e políticas.Restam esperanças: com a ampliação da internet e das redes sociais múltiplas vozes têm despontado no horizonte monofônico da comunicação brasileira. Que belos ventos!Tenho acompanhado, com perplexidade e surpresa, a cobertura que a mídia tem dado às denúncias de corrupção que assolam frequentemente nossa República. A imprensa tem desprezado o aprofundamento das informações e demonstrado discricionariedade na cobertura. A guerra do bem versus o mal reproduz o velho estilo maniqueísta (uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que dividido em dois, reduzindo os fenômenos humanos e sociais a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo; sendo que a simplificação nasce da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e/ou da pressa de entender e refletir sobre a complexidade de tais fenômenos.). Quase não se fala, por exemplo, sobre os corruptores, os donos do capital por detrás dos políticos corruptos. Por quê? Será que a mídia deseja subjugar a opinião pública à opinião publicada?Somos bombardeados com um vendaval de informações pontuais, muitas vezes descontextualizadas, passando a (falsa) impressão, por exemplo, de que todos os políticos e partidos são corruptos e desonestos. Ou que um partido é mais corrupto que o outro, ao apresentar somente um lado da informação, escondendo outras facetas de forma deliberada ou não. Essa situação tem provocando um misto de histeria coletiva, expressa na raiva, ódio e desilusão em relação aos políticos, e, por outro lado, um imobilismo cívico – a ideia de que este país não tem conserto. Outro fenômeno que ressurge nessas eleições é um sentimento difuso de ódio e vingança, fazendo da disputa eleitoral uma verdadeira guerra, quando o processo democrático da escolha dos representantes deveria ser tão e somente um embate civilizado e respeitoso de ideias, opiniões e pontos de vista sobre os rumos do país. A quem interessa um país dividido; uma não já fragmentada pela desigualdade se transformando em guetos isolados entre seus cidadãos? Frente a tanta (des)informação parece que estamos perdidos; que ninguém é honesto; que não vale a pena lutar pela ética, a verdade, a justiça. Vale a pena, então, ser desonesto e chafurdar-se nas pequenas corrupções do dia a dia? É essa a mensagem sub-reptícia que nos é passada?O pior dos mundos é quando os cidadãos não reconhecem na mobilização social e na luta política o caminho para as mudanças. Quão limitadas e distorcidas são as opiniões de alguns de nossos principais jornalistas e âncoras que corroboram este cenário da parcialidade e desinformação. Ora, os jornalistas têm todo o direito de dar sua opinião e de expressar suas convicções. O que é incompreensível é a parcialidade de certos julgamentos midiáticos; uma espécie de “opinionismo” sem a devida explicação dos argumentos que podem estar permeando os comentários de alguns dos nossos cronistas sociais e políticos, mestres em frases soltas e de efeito, que em lugar de explicar e informar acabam por confundir e desorientar ainda mais os cidadãos.

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