Leitura Crítica da Comunicação

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Nas décadas de 1970 e 1980, a Igreja Católica no Brasil, através da União Cristã Brasileira de Comunicação, investiu numa metodologia chamada Leitura Crítica da Comunicação (LCC). Essa metodologia de interpretação dos conteúdos da imprensa tinha como base os princípios cristãos, a ética e a cidadania. Eram oferecidos cursos de comunicação de curta duração a agentes pastorais, religiosos e estudantes secundaristas. O Programa LCC se concentrava nos excessos da televisão, como a violência, o sexo, o preconceito e os estereótipos sociais. Com o auxílio de cursos práticos de produção em comunicação, o objetivo do programa era que os próprios participantes tomassem consciência da contradição entre seus valores e os valores propostos pela mídia.De lá para cá muito coisa mudou no Brasil. Mas a grande mídia continua concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos, o que se constitui um entrave para a democratização da comunicação no país. No início deste ano, a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras denunciou a situação de concentração de poder midiático existente no Brasil. Definindo o quadro brasileiro como o “país dos 30 Berlusconi”, a ONG alertou para o perigo que sofre a independência da informação, através do poder concentrado dos grandes grupos de mídia no Brasil. Segundo a ONG, um dos problemas endêmicos do setor da informação no Brasil é a figura do magnata da imprensa, que “está na origem da grande dependência da mídia em relação aos centros [principalmente estrangeiros] de poder”.Comentamos na edição de 22 de setembro deste JORNAL que para contrapor um discurso quase hegemônico produzido pela grande mídia, principalmente através das grandes agências de notícias – que ditam normas de comportamento e modos de vida – é preciso criar espaços novos, dialógicos, de contrainformação e que possibilitem novas interações entre os cidadãos.Com o advento da internet, esses espaços de comunicação vem se constituindo de forma mais democrática, horizontal e plural, possibilitando que novos comunicadores expressem suas preferências e as múltiplas vozes que são ocultadas pela grande mídia. 

Antes éramos apenas receptores de mensagens; agora podemos ser emissores. Também podemos manipular conteúdos para novamente transmiti-los. Somos atores comunicacionais. Podemos alterar, para o bem ou para o mal, toda a compreensão dos fatos divulgados pela grande mídia.O uso de blogs e redes sociais – como uma forma de mídia alternativa e potencialmente comunitária – possibilita o estabelecimento de “novas esferas públicas alternativas”. Esses espaços devem ser baseados no diálogo, no respeito à diversidade e na superação dos estereótipos e tabus. Não podemos transformar nossos blogs e redes sociais em espaços de repetem os mesmos preconceitos e discriminações, tão presentes na grande mídia. 

Porém, como produtores de informação devemos ter uma apurada consciência ética e política do nosso papel. Portanto, antes de comunicadores precisamos ser bons receptores e leitores da comunicação que recebemos ininterruptamente. Nada mais importante que retomarmos os princípios que forjaram, no passado, o projeto da LCC.Publicado originalmente no jornal SANTUÁRIO DE APARECIDA.

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