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Blog do curso de Jornalismo da universidade Fumec

A luta pela delicadeza

Recordo-me de que, no começo do ano de 2017, fui presenteada pelo meu pai com dois livros que contavam uma história que até então desconhecia. Fui tomada por uma onda de curiosidade que me fez terminar a leitura em apenas alguns dias. O Holocausto Brasileiro, da jornalista e escritora Daniela Arbex, de 2013, e Nos Porões da Loucura, do também jornalista Hiram Firmino, de 1982, narram a história que marcou para sempre Barbacena como a cidade dos loucos. 

Quando alguém fala alguma coisa que parece insanidade, ou algo que não tenha sentido, temos o costume de perguntar: “Você está louco?”. Na cidade do interior de onde eu vim, Mariana, além dessa típica frase, nós também falávamos: “Vou te mandar para Barbacena!”, em tom de brincadeira. Eu nunca entendi o motivo daquilo, mas reproduzia a fala como se soubesse a explicação. E foi por meio da leitura dos dois livros que, finalmente, compreendi o que as pessoas estavam querendo dizer com aquela frase. Barbacena possuía o maior manicômio do Brasil, o Hospital Colônia de Barbacena, que funcionou de 1950 até a década de 1980, e foi o cenário de 60 mil mortes. 

A partir da leitura de documentos sobre a época de funcionamento do hospital, inclusive do livro Holocausto Brasileiro, fica claro que muitas pessoas internadas no Colônia não apresentavam nenhum quadro de loucura. O hospital destinado à reabilitação psiquiátrica tornou-se um grande depósito de indivíduos que estavam à margem do contexto social da época, como, por exemplo, prostitutas, mães solteiras, negros, homossexuais, mulheres que traíam seus maridos, algumas vezes, maridos que queriam se ver livres de suas esposas, e pacientes com deficiências físicas ou mentais.

As mortes eram causadas por, entre outras razões, ausência de tratamento médico ou formas de tratamento indevidas e, muitas vezes, desumanas, como o eletrochoque. Alguns pacientes morriam por doenças decorrentes do frio intenso característico da cidade, ou então sufocados uns pelos outros quando, na tentativa de se aquecerem, ficavam aglomerados e muitos morriam sem ar. Quando não eram despejados em um lugar qualquer, os corpos eram vendidos para as faculdades de medicina.

No Museu da Loucura, é possível conhecer um pouco mais sobre o que ocorreu na cidade, a maneira como as pessoas eram tratadas e tudo era jogado para debaixo dos panos, para que a sociedade não tomasse conhecimento das atrocidades que ocorriam ali, como a venda ilegal de cadáveres. Durante a visita ao museu, em Barbacena, em diversos momentos, eu senti agonia, medo. As coisas expostas causaram em mim enorme desconforto. E tudo aquilo fazia parte da história de milhares de brasileiros. 

 O museu de dois andares é um ambiente escuro e um pouco perturbador. Objetos e fotos da época ilustram a história contada pelas placas explicativas. Ao subir as escadas, se olharmos para cima, veremos uma grade com uma pessoa visivelmente transtornada, como se estivesse presa, representando perfeitamente como os indivíduos eram tratados naquele hospital que mais parecia um depósito de pessoas que, por alguma razão, não agradavam os olhares da sociedade. 

Uma porta preta guarda o local mais perturbador do museu. Ao entrar na pequena sala dei de cara com a radiografia de um crânio. Naquele momento tudo ficou claro, ali se explicava como era realizada a lobotomia, processo em que há o corte das ligações dos lobos frontais com o resto do cérebro, com o objetivo de estabilizar emoções. Enquanto lia os quadros informativos, o barulho de um coração batendo, um dos efeitos especiais da sala, ecoava em minha cabeça. Em alguns momentos era baixo, em outros, alto e acelerado. Meu coração entrou no mesmo ritmo e saí da sala, cansada, com o coração acelerado e completamente atordoada.  

Tudo me fazia pensar que aquela história não poderia ser real. Como alguém seria capaz de torturar um ser humano? É uma pergunta ainda sem resposta, pois nada justifica o que foi feito naquele passado sombrio. A sociedade está em dívida com aquelas pessoas, em especial, com os portadores de sofrimento mental. E, há algum tempo, por meio da Reforma Psiquiátrica, essa dívida, que é eterna, começou a ser paga.  

A Reforma Psiquiátrica iniciou-se no Brasil entre os anos 1978 e 1980 e nasceu dentro do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM). A proposta veio carregada de ideais que defendiam melhorias nas condições de trabalho dos profissionais da área, com a regularização da situação trabalhista, aumento de salário e diminuição do número excessivo de consultas realizadas por turno de trabalho. Além disso, os profissionais criticavam as condições de assistência à população, como o uso dos eletrochoques, e prezavam pela humanização do serviço. 

O MTSM tem um ponto curioso que deve ser destacado: a resistência à institucionalização. Essa decisão foi tomada de forma proposital, para evitar que a medida trouxesse a perda de autonomia do movimento dos trabalhadores. Na segunda metade dos anos 1980, a escolha fez todo sentido, com a “desinstitucionalização” tornando-se conceito-chave no processo de transformação da psiquiatria, e a adoção do lema “Por uma sociedade sem manicômios”. Outra novidade foi a criação das associações de usuários e familiares que lutaram pela melhoria das práticas e cuidados com os portadores de sofrimento mental, além da transformação do modelo asilar vigente à época. 

Toda essa luta teve como inspiração o modelo italiano defendido pelo médico Franco Baságlia. Em 1979, Baságlia participou do III Congresso Mineiro de Psiquiatria e realizou uma série de seminários em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro que trouxeram à tona discussões sobre a desinstitucionalização do portador de sofrimento mental. Defensor do convívio social como forma de tratamento, o médico divulgou a desmontagem do aparato hospitalar público na Itália, medida que visava o resgate da cidadania do portador de sofrimento mental, ao extinguir a internação compulsória e os manicômios.

Intrumentos utilizados no procedimento cirúrgico que corta as ligações dos lobos frontais com o resto do cérebro Foto: Camila Quirino
Intrumentos utilizados no procedimento cirúrgico que corta as ligações dos lobos frontais com o resto do cérebro Foto: Camila Quirino

O fim dos manicômios simboliza a eliminação de todas as práticas de discriminação e segregação, como também a humanização do tratamento dos indivíduos que possuem transtorno mental. Em 1989, a Reforma Psiquiátrica conquistou a implantação de um sistema substitutivo do modelo manicomial. Foram criados Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPs), cooperativas, associações, instituições residenciais e Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) que já existiam desde 1987, em São Paulo. 

Além disso, em 1989, foi apresentado o projeto de lei do deputado federal Paulo Delgado, que regulamentou os direitos das pessoas em sofrimento mental em relação ao tratamento, defendendo a extinção progressiva dos manicômios públicos e privados e a implementação de novos métodos de tratamento.   Um dos maiores desafios desse processo é saber trabalhar com o fato de que a elaboração de planos de inclusão não é suficiente para que o portador de sofrimento mental se sinta reinserido na sociedade, mas é necessário oferecer a essas pessoas condições mínimas de sobrevivência.

Um trabalho realizado em 2003 pelas pesquisadoras Maria Inês Moreira Badaró (Univale) e Ângela Nobre de Andrade (UFES) contou com a participação de seis pacientes do Centro de Referência em Saúde Mental (Casam), localizado na cidade de Coronel Fabriciano (MG), e ilustra um pouco dos desafios da reforma.

Em um dos casos apresentados, o próprio paciente pede a sua internação por dificuldades em reestabelecer a vida após o período que ficou afastado das atividades sociais. Isso acontece porque, após a internação, muitos pacientes são demitidos, o que os torna dependentes do ponto de vista financeiro. Alguns que tentaram engrenar no mercado de trabalho novamente só encontravam oportunidades de emprego inferiores às condições deixadas anteriormente.

Essa situação contribuiu para que os próprios pacientes não quisessem deixar o ambiente em que foram internados, já que não conseguiam estabelecer uma vida digna fora dele. O grande desafio da Reforma Psiquiátrica não é só recuperar o paciente de volta para o convívio social, é pensar em alternativas de serviços substitutivos que possibilitem que eles possam viver em sociedade como um cidadão, garantindo seus direitos. 

Como a loucura não é debatida no convívio social, as pessoas não estão prontas para lidar com o “louco”e suas diferenças. O despreparo atinge a família, o que torna a tarefa da reinserção cada vez mais difícil.

Em busca de superar tais desafios, seguindo a linha da reinserção social, surgiram os Centros de Convivência (CC) que iniciaram suas atividades em Belo Horizonte em 1993. Os CC auxiliaram na transformação da cultura da exclusão do portador de sofrimento mental, ao reforçar a ideia de que a loucura não é assunto exclusivo da área da saúde ou medicina, mas está relacionada aos modos de vida na cidade.

O Ministério da Saúde define, no relatório “Reforma Psiquiátrica e política de Saúde Mental no Brasil”, que os Centros de Convivência são “dispositivos públicos que compõem a rede de atenção substitutiva em saúde mental e que oferecem às pessoas com transtornos mentais espaços de sociabilidade, produção cultural e intervenção na cidade. Estes centros, através da construção de espaços de convívio e sustentação das diferenças na comunidade, facilitam a construção de laços sociais e a inclusão dos portadores de sofrimento mental”.

Segundo a terapeuta ocupacional, Adriane Rodrigues, os CC são dispositivos que atendem prioritariamente pessoas com sintomas psicóticos graves e persistentes, no entanto, os diagnósticos dos frequentadores não é o foco. “A prioridade dos CC está em oportunizar aos seus frequentadores um espaço de convivência, experimentações e trocas por meio da oferta de oficinas de artes e artesanato, como também produzir no espaço das cidades, construindo outro lugar social para a loucura”.

Mesmo fazendo parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) que financia todos os serviços de atendimento e atenção à saúde mental substitutivos aos manicômios, os Centros de Convivência não são financiados pelo Ministério da Saúde, mas iniciativas das prefeituras. Os CCs não utilizam a verba do SUS e possuem incentivo apenas do município. “Para garantir o funcionamento dos centros de convivência de forma mais efetiva e também a ampliação desse serviço para todos os municípios, seria importante um financiamento via SUS”, sugere a gerente do Centro de Convivência César Campos (CCCC), Isabel Silviano Brandão.

“Apesar de estar previsto na política de saúde mental e já ter sido normatizado por portaria ministerial, posteriormente revogada, os CC ainda não foram contemplados por nenhum tipo de financiamento federal, o que dificulta sua implantação e disseminação pelo país.”, explicou-me Adriane Rodrigues. 

Por isso, os Centros são muito vulneráveis aos interesses políticos do município que decide apoiar ou não um tratamento alternativo para a saúde mental. Izabel afirma que o projeto não é barato, devido aos gastos com a contratação de pessoas, equipamentos e materiais, como papel e tinta. “O grande furo é não termos o financiamento da verba federal do Ministério da Saúde. Falta o fortalecimento nacional dessa política. Inclusive agora nós estamos correndo risco. O novo coordenador nacional da saúde mental está querendo voltar com a compra de leitos em hospitais psiquiátricos particulares pelo SUS. E a verba para isso vai sair dos serviços substitutivos, uma vez que a verba para saúde e educação está congelada devido à PEC 241. Esse é o grande risco que o projeto está correndo com uma leitura completamente equivocada da saúde mental”.  

A gerente do CCCC faz referência à recente declaração do Coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro, divulgada no portal Esquerda Diário. O coordenador se mostrou favorável ao retorno do modelo psiquiátrico manicomial e o SUS voltará a discutir a expansão de leitos em hospitais psiquiátricos no Brasil em busca de substituir a política de tratamento em vigor.

Essa declaração foi recebida pelos trabalhadores da saúde mental como um perigoso recuo no processo da Reforma Psiquiátrica. “Recebemos com muita preocupação mais uma ameaça de retrocesso. O modelo psiquiátrico manicomial só favorece ao dono da instituição, muitos enriqueceram à custa do sofrimento das pessoas internadas nos hospitais psiquiátricos. Foi assim no passado e será assim novamente se este modelo voltar a vigorar”, declarou Adriane. 

A terapeuta ocupacional me disse que, por esta razão, os militantes estão se reunindo para pensar estratégias de resistência e combate ao retorno do modelo manicomial. Nos dias 8 e 9 de dezembro, profissionais, usuários e familiares na cidade estarão em Bauru para comemorar os 30 anos de luta por uma sociedade sem manicômios O encontro lembra a inauguração do Movimento da Luta Antimanicomial, durante o II Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores, realizado na cidade, no ano de 1987. Também foi o momento em que se construiu o “Manifesto de Bauru” que destaca a afirmação do laço social entre os profissionais e a sociedade no enfrentamento das questões e a fusão com o Movimento da Luta Antimanicomial em defesa de uma reforma psiquiátrica democrática e popular.

A gerente do Centro de Convivência Carlos Prates (CCCP), Maria Eliza Vasconcelos, também alerta para a vulnerabilidade do projeto, mas acredita que em Belo Horizonte (BH) a política dos Centros de Convivência tenha mais força do que nas outras cidades brasileiras. 

“Aqui em BH essa política se sustenta porque é reconhecida pelos usuários, familiares, por associação dos usuários da saúde mental que participam da Comissão de Reforma Psiquiátrica no Conselho Municipal de Saúde. Eles têm uma representação política que dá sustentação ao projeto. A capital mineira é vista como referência nesse projeto”, avalia a gerente do CCCP.

A Luta Antimanicomial está sempre se renovando em torno das causas atuais. Segundo o psicólogo e professor da Universidade Fumec, Jacques Akerman, um importante campo da luta hoje está relacionado às toxicomanias que consistem no consumo compulsivo de substâncias ativas sobre o psiquismo, como o álcool e as drogas. “As comunidades terapêuticas evangélicas, supostamente voluntárias, são hoje espaços manicomiais, de exclusão e de adequação. Existem umas 2 mil comunidades terapêuticas no país e muitas delas são violadoras de direitos humanos básicos, como o direito de telefonar, de ir e vir. Existem ainda instituições manicomiais no Brasil no campo da saúde mental mas, mais do que na psiquiatria, no campo das toxicomanias”, afirma, destacando ainda que o Movimento levanta hoje as bandeiras contrárias ao racismo, machismo e violência. “E principalmente, contra o manicômio que existe dentro da cabeça de cada um de nós, a nossa necessidade de eliminar a diferença do outro. Essa é uma luta que não vai acabar nunca, as bandeiras sempre se renovam”.

A rede em BH

Implantada em 1993, a Política de Saúde Mental da Prefeitura de Belo Horizonte é marcada por inovações no campo da Reforma Psiquiátrica. Pioneiro entre as grandes metrópoles brasileiras, o trabalho segue a lógica antimanicomial que valoriza o cuidado em liberdade, buscando a conquista da cidadania e a reinserção social dos portadores de sofrimento mental. Ao longo dos anos, foram desativados 1,8 mil leitos psiquiátricos, com o objetivo de acabar com hospitais que apresentam marcas de abandono, violência, isolamento e segregação. Os recursos financeiros, até então destinados a essas instituições, estão sendo investidos na implantação de uma rede substitutiva de atenção e cuidados aos portadores de sofrimento mental em Belo Horizonte.

A cidade é vista hoje como referência quando se trata da oferta de dispositivos substitutivos de tratamento. A capital de Minas Gerais possui um sistema completo que atende o usuário desde os momentos de crise mais grave, no Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam), até quando o paciente, por indicação do Cersam, passará então a frequentar os Centros de Convivência e as cooperativas de trabalho.

Se voltar a ter uma crise, será reencaminhado ao Cersam pelos profissionais dos centros de convivência e cooperativas. Além disso, a rede conta com equipamentos para atendimento às pessoas que não estão em crises tão graves nas Unidades Básicas de Saúde.

“Quando nos referimos a uma crise, significa que percebemos alterações no modo de ser daquele indivíduo que passa a apresentar mudanças no pensamento, no comportamento, no humor. Os sintomas são diversos e variam de pessoa para pessoa, podemos citar alguns como as alterações de comportamento, quando o sujeito pode apresentar momentos de intensa atividade ou, ao contrário, uma forte tendência ao isolamento; ou a presença de frases desconexas, interrompidas antes da conclusão do pensamento ou sem sentido com a realidade e até mesmo quando a pessoa ouve vozes ou tem sensações táteis no corpo. A família que convive com a pessoa percebe que há algo de estranho ou diferente do habitual”, explica a terapeuta ocupacional, Adriane Rodrigues.

Um ponto importante da rede de tratamento substitutivo é a valorização do pertencimento ao território, com o acesso aos equipamentos necessários para o tratamento no bairro ou região onde se vive. “Existe em BH um centro de convivência em cada regional. Para nós, essa questão é muito importante, pois tratar o usuário perto de sua casa auxilia na criação de laços com o território”, esclarece a gerente do Centro de Convivência Arthur Bispo do Rosário, Karen Zchée. “Às vezes conseguimos mudar até a forma com que o usuário é visto dentro da comunidade, alguns são vistos como os doidos do bairro, outros ficam muito isolados. Dessa forma, investimos na criação de laços, vínculos e no sentimento de pertença ao território”.

Todas as atividades desenvolvidas pelos Centros de Convivência auxiliam no processo da inclusão que começa internamente nas oficinas, juntamente com o oficineiro e colegas, expandindo-se para a cidade por meio de passeios, atividades externas, mostras de arte, viagens e eventos culturais. São elaborados eventos de grande porte, como o desfile realizado em 18 de maio, o Dia da Luta Antimanicomial. O desfile sai pela cidade para mostrar a política inclusiva adotada em Belo Horizonte. Os Centros também organizam eventos menores, como a Semana dos Jogos de Primavera, que envolve todos os serviços das redes substitutivas.

A arte como intervenção

O objetivo do centro de convivência é trabalhar a inclusão social dessas pessoas que ficaram afastadas da sociedade por muito tempo, disse-me Maria Eliza enquanto conversávamos no CCCP, onde observei as atividades desenvolvidas para resgatar a vontade de viver em sociedade. Ela esclarece que “a própria doença quebra os laços, as pessoas perdem os laços afetivos às vezes com a família, com a sociedade, com grupos sociais e, então, o objetivo do Centro é readaptá-los, é reconstruir histórias para a inclusão na cidade”. 

A participação em atividades culturais, como mostras de arte, teatro, cinema, parques e praças, pode efetivamente transformar os olhares de preconceito e medo em admiração e empatia. O encontro nas ruas gera a troca de experiências e a descoberta de que devemos não só aceitar, mas também conviver e aprender com o diferente, o que contribui para combater o preconceito e auxilia na construção de um espaço público de cidadania, longe da condição de exclusão e abandono social. 

Durante a visita ao CCCP, estava extremamente insegura em relação a minha experiência naquele lugar e como seria recebida pelos frequentadores. Fui surpreendida quando um dos usuários me levou para conhecer o espaço. A natureza torna o ambiente aconchegante, as pessoas repousam à sombra das árvores, o que me tranquilizou em meio à euforia que sentia quando estava a caminho. Conversei com a gerente que me acompanhou ao encontro das pessoas. O cheirinho de café tomava conta do ambiente onde chamam atenção os desenhos, pinturas e artesanatos produzidos pelos integrantes do grupo. Fui apresentada a eles enquanto trocavam um dedo de prosa e compartilhavam o lanche da tarde. 

Os Centros de Convivência buscam ampliar os laços sociais, com a inserção no mercado de trabalho, a construção de relações com a cidade e formas potentes de comunicação, como, por exemplo, a arte. “O objetivo é fazer com que o sujeito possa se expressar numa outra forma de linguagem. Aqui trabalhamos com uma arte criativa, não existe condução por parte do monitor. Existe o desejo que se expressa e cada usuário produz o que tem vontade”, diz Maria Eliza. 

A arte é um veículo para trazer à tona a criatividade, entendendo que as formas de expressão superam a linguagem oral ou escrita. A gerente do Centro de Convivência César Campos, Isabel Silviano Brandão, vê a arte como transgressão: arte é o inusitado, o novo, e, por isso, anda lado a lado com a loucura. “A linguagem artística provoca o olhar, o sujeito, a sociedade e, por isso, combina tanto com a loucura, que também ocupa esse lugar de transgressão, inquietação, traz o estranhamento, é assim que arte e loucura andam paralelas”. Isabel, assim como Maria Eliza, destaca que o Centro de Convivência é um local para aguçar a criatividade do usuário, os monitores ensinam o básico nas oficinas e a partir disso cada um cria a sua obra. “Aqui eles são livres para serem criativos, estimulamos o projeto autoral”. 

Clarice Steinmuller coordena as oficinas de mosaico que acontecem no Centro de Convivência São Paulo. Para ela, a arte, inserida em um contexto social mais amplo, é um processo muito importante na recuperação de pessoas com sofrimento mental. O centro de convivência é um equipamento dentro da uma rede de serviço substitutivo que trabalha a arte e a cultura para promover a expressão pessoal e a inclusão social, onde são proporcionadas oficinas de arte e a circulação pela cidade é incentivada. “Eu acredito que, muito mais que a arte, o ponto mais relevante é proporcionar a convivência entre os usuários do serviço, a circulação pela cidade, ter espaço para ir ao cinema, para fazer uma exposição. Acredito que a arte e a cultura estejam inseridas nesse lugar de proporcionar a troca, a conversa e a possibilidade de viver novas experiências que podem ser estéticas, mas que podem ser de outras ordens também”, contou-me Clarice. 

Durante a nossa conversa, não pude deixar de prestar atenção em dois homens que faziam mosaicos. Diógenes era muito discreto, por isso, tive uma agradável surpresa quando começou a conversar conosco, pois não esperava que interagisse enquanto eu estivesse ali. Apesar das poucas palavras, Diógenes impactou-me quando falou sobre sua experiência no centro de convivência. Depois de quatro anos sem sair de casa e passar por um período de muito sofrimento e depressão, ele começou a frequentar o centro todas as terças-feiras, quando sua vida mudou. “Isso aqui é uma terapia! Aqui eu deixo de perder o meu chão, às vezes a medicação nos deixa no ar e aqui eu me encontro com a realidade. A arte me ajuda a voltar para a minha realidade. O centro de convivência nos oferece uma oportunidade de procurarmos um rumo, procurar novos caminhos”. 

Os Centros de Convivência têm uma importante característica em comum: as portas estão sempre abertas para que os usuários e visitantes circulem livremente, seguindo à risca o principal ideal defendido pela rede substitutiva de tratamento, a liberdade. 

O César Campos

O Centro de Conviência César Campos (CCCC) é uma casa pequena, alegre e colorida, a natureza ali é marcante, trazendo frescor ao ambiente composto por peças feitas pelos usuários. Ao chegar fui apresentada pela gerente aos frequentadores, era hora do lanche comunitário.  Eu pude participar do encontro, quando todos quiseram dividir um pouco do que haviam levado. Maria da Glória trazia uma pequena vasilha com pedaços de pera e maçã e fez questão que eu comesse pelo menos um pedaço de cada fruta. 

Maria é uma jovem senhora, como ela mesma se intitula, muito alegre e vaidosa. No dia em que a conheci, vestia roupas coloridas e usava muitos acessórios, como pulseiras, colares. Na tiara que trazia presa aos cabelos, uma borboleta parecia expressar, talvez não intencionalmente, uma mente livre para voar, para criar. “Aqui é um lugar para conviver, todos são muito bacanas e os professores são muito alegres. Todos os alunos são uma gracinha! Eu amo esse lugar, aqui todo mundo se respeita, esse convívio faz muito bem para nós, ajuda a pensarmos coisas boas. A felicidade dos meus colegas é a minha também.”

Fomos para uma sala onde acontece a oficina de desenho e pintura. Lá estavam empilhadas em armários e em cima das mesas inúmeras obras feitas por eles. Maria e Carlos, que também participam das atividades, começaram a me presentear com seus desenhos, extremamente significativos, porque, como Carlos me explicou, muito mais do que desenhos, aquela imagens representavam o que estava no interior de cada um. “Quando desenhamos, desenhamos o que está dentro nós. O desenho é o retrato do que passamos por dentro. Eu coloco a minha alma”. Enquanto isso, Maria da Glória tentava me explicar o significado das cores escolhidas. “Utilizei o verde aqui, porque para mim representa esperança de um mundo melhor, de pessoas melhores”. 

Essa experiência me fez refletir sobre a importância da arte na recuperação das pessoas com sofrimento mental. Eles não estavam apenas pintando ou desenhando imagens sem sentido. Tudo aquilo possuía um significado que podia ser explicado detalhadamente pelo autor da obra. Apesar de não ser a intenção das oficinas fazer uma reflexão sobre as obras, a arte vai muito além da distração, é uma forma potente de expressar sentimentos.

Suricato

A inclusão acontece por meio de atividades artísticas, mas também do trabalho. Os centros possuem projetos que visam inserir o usuário no mercado formal e informal de trabalho, como na Incubadora de Empreendimentos Econômicos e Solidários da Saúde Mental  Suricato, criada em 2004. Quem participa da associação localizada no bairro Floresta, vende os produtos que o grupo desenvolve nos núcleos de produção: culinária, marcenaria, costura e mosaico, além do trabalho no quintal cultural, onde os integrantes recebem e apresentam atividades culturais. No bar, eles trabalham em todas as funções, como garçons, cozinheiros e caixas.   

A coordenadora da cooperativa Suricato e terapeuta ocupacional, Marta Soares,  contou-me que a associação foi pensada, desejada e gerida por pessoas que fazem tratamento na rede pública de saúde mental de Belo Horizonte. Segundo ela, essas pessoas iniciaram um movimento em direção ao trabalho que transparecia a vontade de reconhecer suas possibilidades e potências. “As pessoas desejam o trabalho: eu posso trabalhar, eu quero trabalhar e acho que consigo. Surge o desejo de se sentir capaz”, sintetizou. 

A partir da vontade dos usuários da saúde mental, o Movimento da Luta Antimanicomial e o Fórum Mineiro de Saúde Mental começaram a debater possíveis respostas para a demanda coletiva. O Fórum buscou a qualificação profissional dos portadores de sofrimento mental nas áreas eleitas a partir de um questionário. Com os resultados e recursos captados junto ao Fundo de Amparo ao Trabalhados do Ministério do Trabalho e Emprego, foi possível organizar cursos e grupos e ainda que os portadores de sofrimento mental fossem encaminhados aos locais de formação nas áreas que haviam escolhido, como Marta me disse. “Essa foi a primeira experiência de qualificação profissional de pessoas historicamente aleijadas do mundo do trabalho, acabando com o estigma de que o louco não trabalha, que era tido como verdade”. 

O espaço localizado na Rua Souza Bastos, na região leste da capital, é uma organização não governamental de direito privado que tem como primeiro princípio o trabalho como um valor que produz o que dá prazer. “Temos outros princípios, mas esse é muito importante pelo lugar que ele ocupa. Ele propõe o resgate do sentido do trabalho para o ser humano, aqui eles trabalham por prazer, trabalham no que gostam e isso faz toda a diferença”, destacou a terapeuta ocupacional.

Jefferson, um dos sócios da cooperativa, também é MC, e como “mestre de cerimônia” interage com o público nos eventos dos quais participa. Enquanto cantava um de seus raps para mim, ele intercalava a música com demonstrações de carinho pelo trabalho na associação. “Nós gostamos muito do que fazemos aqui. Nossa regra é trabalhar com aquilo que temos amor em fazer, e não aquilo que temos obrigação de fazer. A Suricato é um lugar de geração de renda, não de serviço, somos uma cooperativa. De repente é isso aí que é a Suricato, né? Te expliquei direitinho?”

A casa, que está completando três anos de funcionamento, foi aberta em comemoração aos dez anos da Suricato. Jeffinho, como gosta de ser chamado, guiou-me gentilmente durante o passeio pelos cômodos que expõem objetos desenvolvidos nos núcleos produtivos de mosaico, costura, marcenaria, além da culinária que invade o espaço com o aroma da comida preparada com muito afeto, no “quintal cultural”. Por diversas vezes, Marta e eu tivemos que parar a conversa, pois fomos tomadas pelo cheiro vindo da cozinha do bar. 

Ela me falou sobre a importância do valor da liberdade no dia a dia do Suricato. “Temos como princípio o tratamento em liberdade, o resgate dos direitos e da cidadania, da vontade de produzir vida. Defendemos os ideais da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial. O projeto foi pensado como casa mesmo, começamos com uma intervenção artística e lotou. Nós não tínhamos noção de como seria, é um salto no escuro, é realmente um ato de loucura e agora nós estamos aprendendo muito a cada dia a lidar com o trabalho, com as dificuldades, com o público, com o negócio, com as diferenças”. 

A influência do trabalho desenvolvido pela cooperativa na vida de seus sócios, principalmente daqueles que sofrem com transtornos mentais, é a conquista de um espaço no mundo, o resgate do amor próprio e de um sentido para vida, como revela Marta: “Desenvolvemos o pertencer, o ser reconhecido, a autoestima, poder contribuir com o orçamento familiar, a autonomia, a circulação pela cidade. É um processo que não para por aqui”.

Valter, um dos sócios da casa, contou-me que, por vezes, questiona-se quanto à influência da Suricato na sua vida. Mas a resposta, que pode não ser simples para ele, aparece no olhar de satisfação quando fala sobre o sonho que se tornou realidade. “As pessoas aqui têm sonhos e a abertura desse local é nosso sonho coletivo. Aqui nós mostramos nosso amor ao trabalho. Do ponto de vista da inclusão, acho que esse lugar está cumprindo o objetivo dele, abrimos essa vitrine para a cidade e eu sempre brinco no início das apresentações que aqui é o encontro da cidade com a loucura. Aqui é um lugar muito valioso, muito rico, sabemos que estamos todos no mesmo barco.”

“Mas todo mundo é louco aqui?”. Segundo Valter, essa pergunta é muito frequente e motivo de risada entre todos os sócios. Sorrimos um para o outro, pois eu sabia que este havia sido o meu primeiro pensamento ao entrar na casa. Ele acredita que a preciosidade do projeto está exatamente neste encontro entre os diferentes e na possibilidade da desmistificação da loucura. “A riqueza do projeto está em ser reconhecido, de podermos mostrar a cara. A troca entre os artistas, o público e os trabalhadores é muito interessante. Essa mistura toda é o lugar dos laços, aqui fortalecemos nossos vínculos por ser um ponto de encontro, as pessoas vêm para conversar, para curtir a arte”. 

Valter (penúltimo, na foto) e sócios: "As pessoas aqui têm sonhos e a abertura desse local é nosso sonho coletivo" Foto: Camila Quirino
Valter (penúltimo, na foto) e sócios: “As pessoas aqui têm sonhos e a abertura desse local é nosso sonho coletivo” Foto: Camila Quirino

O espaço é o resultado da relação entre arte e política. “É um ato político estar aqui dentro. As pessoas escolhem vir para a Suricato sabendo que não estão indo a um bar qualquer, a maioria já sabe da iniciativa e vem exatamente por ser um projeto de inclusão, querem ajudar, contribuir, isso que dá sentido ao trabalho. A gente é capaz, né? Esse lugar nos ajuda a caminhar com liberdade pela cidade, a construir novos caminhos, fazer novas escolhas e viver!”

Clarismundo, apelidado carinhosamente pelos colegas de Clarê, auxilia na coordenação da Suricato. Sua trajetória até aqui foi marcada pela depressão e internações do Cersam Leste, até uma psicóloga sugerir que ele começasse a frequentar um centro de convivência. Durante três anos, participou de oficinas de letras até surgir uma oportunidade de trabalho. Como sócio fundador da cooperativa, acompanhou o projeto desde os primeiros passos. “Agora somos reconhecidos na sociedade como capazes, capazes de trabalhar, e isso nos traz uma sensação de liberdade muito grande. É muito bom poder circular pela cidade e interagir com as pessoas naturalmente”, contou-me com muita alegria porque, apesar de todas as dificuldades, finalmente conseguiram conquistar um espaço.

O projeto, pioneiro no Brasil na implementação de uma entidade gerida, em sua maioria, por pessoas portadoras de sofrimento mental, recebeu a sugestão de vários nomes, mas todos traziam o termo “saúde mental”. Surgiu então o questionamento: Mas temos que sair com isso carimbado na testa?. Com várias ideias e nenhuma conclusão, o nome foi deixado de lado, até que João Camilo, um dos frequentadores do Centro de Convivência Pampulha, deu a ideia de “Suricato”.

“Os suricatos são bichinhos que vivem nas savanas e para sobreviverem devem estar sempre atentos. Eles se organizam e se solidarizam uns com os outros para se protegerem. Caso contrário, são presas fáceis.”. Pronto! É exatamente essa a essência da casa! A sugestão não poderia ser mais acertada. “Esse nome nos representa. Sozinhos não conseguiríamos. Precisamos uns dos outros. Somos como esses bichinhos que para sobreviverem às intemperes das savanas se juntam e trabalham em equipe sempre cuidando um do outro. Da mesma forma que fazemos aqui”, define Marta. 

Enquanto ainda nos deliciávamos com o cheiro que vinha subindo da cozinha, o estabelecimento começou a encher até que um convidado muito especial chegou. Chico é apenas uma criança, com toda a sua inocência ainda não é capaz de entender a importância daquele lugar. Ele correu para o sofá da sala onde eu e Marta conversávamos, como se realmente estivesse em sua própria casa. Os pais de Chico haviam se casado na casa que é palco para chás de bebê, aniversários, lançamentos de livros e eventos inusitados, conforme os diferentes gostos e estilos dos frequentadores. 

“As pessoas chegam e vão ficando. Estabelecem relações muito afetuosas, vão ficando cada vez mais próximas, criando amizades. Dão ao lugar a cara de casa, que é o que ele realmente é”. Neste momento, mais do que em qualquer outro, fui invadida pelo espírito do projeto. Muito mais que um estabelecimento comercial, a Suricato é um lar.

São Doidão

Em Belo Horizonte existem outros projetos que, assim como a Suricato e os Centros de Convivência, visam à recuperação e inserção social dos indivíduos portadores de sofrimento mental. O grupo musical “São Doidão”, formado por oito integrantes, é fruto das oficinas de música ministradas por Helvécio Viana nos Centros de Convivência Pampulha e São Paulo. No livro “Inclusão Social: construindo saídas”, Helvécio conta sobre sua trajetória desde 2006, como oficineiro, até o momento em que o grupo foi criado. Ele afirma que, além de instrumentos, também ofereceu oficinas de canto coral nos Centros, o que possibilitou a formação de dois grupos vocais. 

O grupo surgiu em 2007. Os ensaios eram ministrados nos centros de convivência Pampulha e São Paulo. Helvécio constata que a experiência do deslocamento na cidade contribuiu para renovar o convívio social, possibilitando que os integrantes se sentissem mais inseridos na sociedade, fazendo parte da cidade. No mesmo ano, eles se apresentaram em espaços ligados à rede pública de saúde mental e ocuparam outros espaços culturais para além dessa rede, como a apresentação realizada durante a Quinta Edição do Encontro Internacional de Corais, em Belo Horizonte. O reconhecimento trouxe o entusiasmo ao grupo que foi estimulado a reinvestir cada vez mais na atividade musical. 

Nos anos de 2008, 2010 e 2012, o São Doidão participou das edições do projeto Mostra de Arte Insensata que tem como objetivo divulgar a produção artística dos usuários da rede pública de saúde mental em Belo Horizonte. Em 2009, recebeu o prêmio Loucos pela Diversidade Edição Austregésilo que trouxe a possibilidade de investimento, em busca da qualificação artística de seus integrantes. Em 2013, lançaram seu primeiro álbum de musical oficial. O lançamento ocorreu em novembro do mesmo ano e reinaugurou o Teatro de Câmara do Cine Teatro Brasil Vallourec. 

No livro produzido pelo Centro de Convivência Pampulha, Helvécio revela que todas as ações artísticas desenvolvidas pelo grupo trazem a seus integrantes o reconhecimento e a valorização social, além de contribuir para a desconstrução do preconceito em relação à loucura. O professor de música conta que os integrantes do grupo passaram a se sentir mais responsáveis pela sua própria saúde, cuidadosos em relação às consultas psicológicas e vaidosos com a aparência, uma vez que o palco possibilita a visibilidade, na relação com a plateia. 

A terapeuta ocupacional Adriane Rodrigues acredita que esse tipo de intervenção artística permite que o portador de sofrimento mental dialogue de igual para igual com a sociedade, vencendo os preconceitos, desmistificando e fazendo circular a loucura pela cidade. Nas suas palavras, “o que se vê são artistas e não mais pessoas com sofrimento mental. Quando estão em cena, não há rótulos, todos se misturam e ninguém sabe na verdade quem é ou não usuário da saúde mental”.

Espaço Comum Luiz Estrela

A intervenção social por meio da arte e cultura é também a marca do Espaço Comum Luiz Estrela. Em 26 de outubro de 2013, um grupo de artistas e ativistas de Belo Horizonte ocupou um casarão histórico tombado pelo Patrimônio Público abandonado havia 19 anos. Construído em 1914, as paredes do local abrigam parte da história da loucura e do combate aos manicômios em Minas Gerais. O objetivo da ocupação não era apenas salvar o imóvel da deterioração, mas também de transformá-lo em um espaço de formação artística, aberto e autogestionado. 

O casarão sediou o Hospital Militar no período de 1914 a 1947, o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, de 1947 a 1980 e o Centro Psicopedagógico, nas décadas de 1980 e 1990. Em 2014 foi criado o Núcleo de Teatro do Espaço Comum Luiz Estrela e, neste mesmo ano, foi desenvolvido o espetáculo Escombros da Babilônia: teatro documentário-manifestação para dias de chuva, que contava sobre a história do morador de rua e artista performer Luiz Otávio da Silva, ovv Estrela. 

A iniciativa chamou a atenção do psicólogo Jacques Akerman. “Fiquei muito interessado no Luiz Estrela depois que assisti à peça de teatro “Os escombros da Babilônia”. Nesta peça são escancaradas muitas questões que são tabus, como a questão do machismo, violência, racismo e a exclusão da loucura”. O Espaço é vizinho do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai) e a proximidade abriu as portas para uma parceria com a ajuda dos alunos da psicologia da Universidade Fumec e outras pessoas que possam auxiliar a levar adiante a proposta. 

O projeto “Criar, Cura?” pretende resgatar o lugar da loucura na sociedade a partir da convivência comunitária e do fortalecimento dos laços interpessoais. A ação se divide em dois momentos: intervenções via oficinas de arte e cultura com os adolescentes internados no Cepai ministradas dentro do próprio hospital, e um grupo de conversação com as mães dos adolescentes na Cozinha Comum, no Espaço Comum Luiz Estrela.  

Já as oficinas de customização de uniformes no Cepai unem a arte ao fazer antimanicomial, para a redescoberta da identidade de cada participante, prejudicada pelo processo de institucionalização. Assim, o ato de entrar no Cepai é um convite para mais uma etapa da reforma psiquiátrica, a abertura das portas do casarão e do hospital que hoje tem uma direção voltada para novos horizontes da ação coletiva.  

O “Criar, cura?” reúne-se desde o dia 17 de julho de 2017. Atualmente, é composto por estudantes e profissionais das áreas da psicologia, arquitetura, teatro e culinária e mantém-se aberto para entrada de novos membros. As oficinas no Cepai e o encontro do grupo de mães na Cozinha Comum acontecem uma vez por semana, às sextas-feiras, das 14h às 17h. 

O atendimento fora do hospital é um momento de respiro em meio à situação desgastante. Na cozinha, as mães podem conversar e ao mesmo tempo produzir o alimento enquanto se distraem. “São pessoas de todo o estado, e muitas vezes ficam esperando o dia inteiro para um consulta. A ideia é montar um local de acolhimento para essas mães no Luiz Estrela que fica ao lado do Cepai”, conta Jacques. 

Fui recepcionada pelos alunos do curso de psicologia da Universidade Fumec que trabalham em projetos dentro da casa e oficinas ofertadas às crianças e adolescentes internados no Cepai. Enquanto conversava com a psicóloga Roberta von Randow, uma das responsáveis pelo projeto, fomos até o Cepai em busca de mães que quisessem fazer parte daquele momento, mas apenas dois familiares compareceram. Uma das explicações para esta resistência dos familiares é a dificuldade em deixar seus filhos, netos ou sobrinhos sozinhos.

Roberta seguiu, com entusiasmo, de volta ao Espaço Comum Luiz Estrela, junto aos dois novos visitantes. Sentamos à mesa para conversarmos sobre coisas da vida. Familiares disseram que, naquele momento podiam desabafar e levantaram o problema da falta de atividade para os pais, uma alternativa para que o tempo passe mais rápido enquanto esperam seus filhos.

Vicentina é avó de Alexandre, adolescente que está internado no Cepai. Ela estava triste por ter que ir embora para a sua cidade e deixar o neto sob os cuidados de familiares. Era necessário, depois de muito tempo sem ir ao salão, fazer as unhas e cuidar dos cabelos. Em Belo Horizonte, os preços desses serviços estavam muito elevados e por isso precisou voltar para sua cidade, mas me assegurou que logo retornaria para ficar com o neto. 

Roberta sugeriu que o Espaço tivesse um salão de beleza para as mulheres, que se dedicam 24 horas por dia aos filhos e acabam ficando em segundo plano. Como o cuidado com elas é a razão de ser do “Criar, cura?”, a sugestão da psicóloga dialoga com o projeto, na medida em que traria leveza, acolhimento e afeto às mulheres que passam longos e exaustivos períodos de tratamento no Cepai onde, muitas vezes, ficam internadas acompanhando os filhos.  

O Espaço Luiz Estrela desenvolve outras ações voltadas à Luta Antimanicomial. Nos primeiros dias de ocupação foi realizada a intervenção “Em Cada Esquina Tem”, ação proposta pelo Centro de Convivência Arthur Bispo do Rosário. A intervenção buscou unir usuários deste serviço e artistas convidados para ocupar, simultaneamente, esquinas de pontos específicos em Belo Horizonte. O objetivo era propor, de forma simples e poética, possíveis diálogos e pensamentos em torno de questões como a inserção da loucura e da arte como meio de interação na cidade.

No início da década de 1980,  um grupo de 23 crianças foi encaminhado do Hospital Psiquiátrico de Barbacena para o então Centro Psicopedagógico (CPP), hoje Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai). Sem a possibilidade de viver com suas famílias, sete daquelas crianças permaneceram no CPP. Em 1998, criou-se o Lar Abrigado para acompanhar e cuidar desses pacientes. 

Os “meninos de Barbacena” são hoje cidadãos com carteira de identidade, CPF, direito à liberdade e dignidade. “Quando fui fazer os documentos foi muito complicado para correr atrás dos registros. A Vanda era a única que não tinha, foi a única que eu tive que inventar uma idade, os outros nós fomos encontrando a documentação”, conta Irmã Mercês, que está ao lado dos meninos desde então. 

O Lar Abrigado ou Casa Amarela foi inaugurado no dia 21 de outubro de 1998 para abrigar “os meninos de Barbacena”, cujos vínculos familiares foram perdidos devido ao longo período de internação. O local é um espaço de convívio que segue as regras da desistitucionalização e promove a ressocialização por meio do cotidiano. 

Antônio (Tonho), Edgar (Didi), Edsonina (Nina), Lucinéia (Lu), Sílvio (Silvinho), Vanda e Wellington Albino moram no Lar. Cada um deles possui uma rotina de atividades de acordo com suas limitações. Nas atividades gerais estão incluídos o passeio na Estação da Vida ou na pracinha e a pintura. No plantão noturno acontecem atividades lúdicas no pátio externo do Cepai, ou no espaço interno em noites muito frias ou chuvosas. 

Tonho é o mais independente entre eles e possui atividades diferenciadas como frequentar o Centro de Convivência Arthur Bispo do Rosário e o teatro Sesiminas que fica próximo ao local. Ele também participa de atividades sociais e ecumênicas da Paróquia Santa Efigênia, além de frequentar, nos finais de semana, o bar da Dona Nita. Diferentemente dos outros que possuem apenas um acompanhamento fisioterápico, Tonho também tem uma fonoaudióloga. “O Tonho frequenta o Centro de Convivência, só não vai na quinta-feira. Ele pinta e faz muitas coisas bonitas. Os outros pintam aqui na casa mesmo, não são tão independentes”, diz Irmã Mercês.

Irmã Mercês sempre acreditou que eles aprenderiam a usar o vaso sanitário e realmente conseguiram, motivo de grande alegria para toda a equipe que considerou a vitória como um pequeno passo rumo à independência. Mas Mercês afirma que não há rigidez quanto ao uso das fraldas, apenas as evita para que os moradores não regridam e percam essa importante conquista. 

Quando entrei no Lar, Sueli, ajudante da Irmã Mercês, disse-me que ela não estava em casa no momento, mas que já estava voltando. Enquanto isso, Tonho se encarregou de me deixar à vontade no local. Fui convidada por ele a conhecer a casa. Na entrada há um mensageiro dos ventos pendurado ao teto. O sino, segundo Mercês, trará bons ventos e também soprará para a cidade os ventos bons vindos da casa, o vento da psiquiatria democrática. 

Enquanto os outros estavam sentados na sala ou em seus quartos, Tonho me mostrava todos os cômodos e apresentava os moradores. A casa é um ambiente aconchegante, com fotos deles em momentos especiais e pinturas em suas paredes, tudo no intuito de fazer com que aquele local seja realmente um lar para quem um dia isso foi negado. 

Ao passar pelo corredor não pude deixar de notar os retratos. As fotos haviam sido tiradas assim que os moradores chegaram ali, cada integrante da família estava representado nas paredes da casa. Tonho, com o objetivo de me ajudar a identificar quem era quem, apontava o dedo para a foto e na direção da pessoa retratada. É incrível perceber como eles mudaram. Aquelas fotos não os representavam mais. As feições tristes e olhares vazios não estampavam mais os seus rostos. Agora eles eram o retrato potente do efeito do amor, carinho e cuidado.

Em seu quarto, Tonho me contava, mesmo sem emitir palavras, histórias de felicidade. Mostrava-me com alegria nos olhos todos os objetos de decoração que ele mesmo havia escolhido a dedo para compor o seu cantinho da casa. Ao pegar o álbum de fotografias com fotos de sua festa de aniversário, Tonho passava as páginas com empolgação enquanto eu observava atentamente sua feição naquelas imagens, era a alegria que tornava viva cada uma daquelas páginas. Enquanto isso, Albino nos observava deitado em sua cama. 

Lar Abrigado: Irmã Mercês, em frente ao painel criado por Tonho Foto : Camila Quirino
Lar Abrigado: Irmã Mercês, em frente ao painel criado por Tonho Foto : Camila Quirino

Irmã Mercês chegou à porta do quarto e nos pegou em um momento de descontração. Eu e Tonho estávamos tirando uma foto juntos para que eu pudesse me lembrar daquele rosto para sempre, como se fosse possível esquecê-lo… Com isso, ela pede a Tonho que me mostre suas pinturas e, com a mesma empolgação, ele espalha suas obras pela cama coberta por uma colcha de seu time favorito. 

“Como eles não falam, a arte representa uma forma muito relevante de se expressar. Apenas o Tonho pinta sozinho, às vezes o Edgar, os outros precisam de um pouco mais de ajuda. Nós estimulamos muito a arte aqui, estamos sempre elogiando o que cada um faz em busca de um reconhecimento. Quando assisti ao filme da Nise da Silveira eu fiquei encantada com o trabalho dela. Eu e o Tonho vimos juntos, mas vou propor para que todos assistam.” 

Para conversarmos, eu e Irmã Mercês fomos para uma sala. Nesse trajeto ela foi me mostrando todos os objetos de decoração da casa, escolhidos com muito bom gosto por Tonho. Minha conversa com a Irmã foi regada com alegria e mimos, como a peteca de plumas rosa que ganhei. Eu via em seus olhos a felicidade que sentia em poder falar sobre os seus meninos. “As nossas conquistas aqui são no dia a dia, como, por exemplo, quando compramos alguma roupa nova. O Edgar ia ao armário e tirava todas as roupas do lugar. Eu deixava, pois assim ele escolhia a roupa que quisesse vestir. Depois, aos poucos, fomos ensinando a ele a não espalhar. Eu notei na Lu um aspecto muito interessante, ao vestir vestidos que fossem mais decotados, ela ficava mais feliz. Temos que respeitar as vontades e as particularidades de cada um”.

Mercês conta com muito carinho experiências da vida de cada um deles e como foram se tornando seres humanos melhores só por receberem carinho e atenção. Naquele lar, a simplicidade e a delicadeza são as bases do cotidiano. Quando estava guardando minhas coisas para ir embora, Irmã Mercês me deu várias barrinhas de cereal para que eu pudesse comer caso sentisse fome no caminho de volta para a casa.

 

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