all-1784292_1920

Dois pra lá, dois pra cá

Publicado em blogueiros

A gente foi lá para conversar e ouvir boa música, o que já era um bom programa. Mas foi muito melhor do que poderíamos imaginar. Reunimos um grupo de amigos no início da noite de uma sexta-feira já distante e escolhemos uma mesa bem em frente ao pequeno palco armado no quarteirão fechado de uma rua da Savassi. Logo que Rafael Chaves (violão e voz), Daniel Guião (violão, guitarra e voz) e Marcelo Carrato (percussão) começaram a tocar houve tanto talento espalhado no ar que tive vontade de não dizer mais palavra, apenas ouvir. Além da qualidade dos músicos, o repertório era saborosíssimo, ponteado de baladas.

Três ou quatro moradores de rua ajuntaram-se entre nossa mesa e o palco e assistiam compenetrados a apresentação da banda. E assim foi até que eles chegaram: um casal especial, em roupas comuns, com aparência, os dois, de terem passado recentemente dos 30. Depositaram bolsa e mochila sobre o palco, começaram a dançar e não pararam mais. Executavam a coreografia improvisada e mediam com olhos infantis a reação do público. Eles não tinham a menor dúvida de que estavam agradando, mas queriam a aprovação manifesta. Foram tão espontâneos, como um dia também nós, que os amamos de imediato: batemos palmas, incentivamos, gritamos nossa gratidão. Os dois iluminaram a noite e a luz que vinha deles era a inocência.

   Iluminados, outros se levantaram para dançar, todos juntos, as tribos misturadas: o primeiro casal, moradores de rua e fregueses do bar. Havia, entre eles, um homem de cabelos longos e secos, bermuda e pernas estragadas por ossos de equivocada arquitetura. Tudo nele parecia só e pobre. Uma tira de borracha amarrada à cintura e a outra extremidade à ponta do tênis surrado mantinha o alienado pé esquerdo paralelo ao chão. Em meio ao abandono, porém, como flor improvável brotando da ruína, exibia-se no rosto daquele homem uma alegria igualmente torta com os exageros de uma vedete.

Num banco de alvenaria, uma moça em silêncio, no frescor ainda do banho tomado, quase invisível de tão imóvel, assistia ao show. O homem aproximou-se com suas muletas sujas e a convidou para dançar. Diante de cavalheiro tão desprovido de encanto, ela se levantou com a candura de uma fada e procurou, com indisfarçável dificuldade, achar alguma suavidade onde pudesse pousar o braço delicado. Seu par deixou uma muleta cair para ajudá-la a encontrar espaço para os pés e, depois de breve ensaio, abandonou a segunda.

E foi então que, na rua aberta no meio de um bairro de uma cidade encravada nas montanhas de um país do hemisfério sul, abaixo das estrelas, em um ponto ínfimo do universo imenso, um homem roto e uma mulher suave dançaram o bolero original: ele tropeçava dois pra lá e ela, dois pra cá, apressava o socorro. Foi tanta belezura, tão definitiva a poesia, que acordamos a eternidade e a memória de nós mesmos. Ao final da música, as trombetas ainda ressoando em nossos ouvidos, nos vimos todos juntos na porta do paraíso.

Um comentário para “Dois pra lá, dois pra cá

  1. la estava ele
    sentado no mesmo lugar
    mesmo sendo em um ambiente diferente

    folheava o mesmo cardapio procurando alguma novidade
    nada…
    tentava se convencer que o prato, recusado tantas vezes, poderia ser uma boa idéia para aquela noite.
    Aquilo seria especial. Seria uma mudança muito grande em velhos hábitos.

    ao fundo havia uma banda tocando as velhas músicas já escutadas varias vezes. Tentava achar algo de diferente naquele momento. Uma nota, uma frase, um erro… alguma coisa tinha que ser única naquele momento. Afinal ele estava pagando pela experiência.

    O show continuava. como manda o figurino…

    mas de repente alguma coisa mudou.
    naquele lugar onde todos pareciam passivos apreciadores da arte.
    outras pessoas pareciam apreciar de outro outra forma.

    O público espantado tirou os olhos da banda e começaram a ver aquele casal que parecia não se mexer como o resto do mundo

    eles colocaram sua mochila no canto, como se não existisse crime
    olharam um para o outro, como se não existisse indiferença
    começaram a dançar, como se existisse música

    ficou espantado
    Como eles poderiam se mexer tão levemente? parecia que não havia peso nenhum em suas costas.
    Parecia que seus pés eram feitos de plumas

    ele olhou para seu próprio pé
    parecia que seus sapatos pesavam mais que todos os prédios ao seu redor
    não tinham mobilidade…
    mesmo sendo de couro italiano comprado de um artesão em Roma.

    Talvez não fosse um artesão tão bom assim.

    Culpou a idade.
    Acreditou que a leveza da vida é dada apenas em um espaço de tempo bem específico da vida das pessoas.
    Pensou que eles devem aproveitar enquanto a vida ainda é feliz.

    Lembrou de sua mesa, de seu escritório, do seu trabalho
    de todo o peso que a vida, ou o que ele chamava disso, lhe havia colocado
    Tantos problemas maiores que o mundo que ninguém conseguiria entender de verdade a não ser ele.
    Tanta insegurança nos olhares de desaprovação
    Tanto trabalho para assegurar um estilo de vida

    Olhou novamente para seus pés
    pareciam estar acorrentados
    um leve desespero bateu

    precisava de alguma justificativa para a prisão que vivia

    focou
    pensou
    e teve a certeza que aquelas correntes eram de ouro
    mais brilhante que qualquer ouro imaginado por exploradores espanhóis

    deu um sorriso de canto de boca
    olhou novamente para o casal de dançarinos
    sorriu e entendeu que aquela felicidade não era mais para ele

    tentou acreditar nisso

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *