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Atenção e beleza

Publicado em blogueiros

Tudo me ensina, portanto tudo me acalma. Sei, por experiência, que a atenção é minha vacina para não adoecer. Se distraído estivesse, o enredo dos enfrentamentos, agressões e disputas nas redes sociais me contaminaria os olhos, depois os sentidos e, em seguida, o mundo percebido desde meu posto de observação. E, assim, essa crise de versões apaixonadas invadiria minha vida, escureceria minha visão, entristeceria minha casa. “Há uma grande ameaça”, repetiria minha boca, cativa de outras vontades que, então doente, seria capaz de jurar serem minhas. E ligaria todos os alertas, assustado por todo o mal ainda por acontecer. As oportunidades se perderiam porque, cego de raiva e medo, não as veria mais. E diria, no meio do escuro em mim, cuspindo nos outros a dor subitamente minha: “Bando de canalhas!”.


Mergulho no frescor poético da crônica de João Carlos Martins. Assim: “Vaga-lumes fazem o escuro parecer um céu estrelado que despencou sobre a mata. Pulsam como um coração: acende-esperança, apaga-solidão… Quero enxergar as luzes do escuro, do escuro do nosso tempo. Quero escutar os sons do silêncio, do silêncio do corpo, que prende uma fala em forma de feridas… Nascentes e lençóis d’água esperam as chuvas como órfãos procurando pais… Em paz de regatos seguem em frente até a serenidade se fazer paisagem… Um silêncio nobre, como um monge, trazendo no ar úmido a interrogação: O que pode haver além?”

Rio com João algumas alegrias: se não visse a beleza, não seria por culpa da paisagem. Lembro-me de imediato de Nivaldo grande poeta Lemos:

“Atravessei a rua só e só não fui plenamente triste por um triz:

Exatamente pela distância entre a saudade que eu de ti sentia

E o calor do teu corpo que mesmo ausente em mim ainda ardia”

O olhar atento nos salva novamente da escuridão. Sem ele, seriam apenas vagalumes e ausência, insetos e saudade. Fosse a distração a regra do momento de cada um, nem teriam escrito nada, ninguém leria coisa alguma e estaríamos, eles e nós, os abençoados por aquelas palavras, mais vulneráveis aos enganos que adoecem o olhar. Seria a atenção uma lembrança do amor?

Pelo poder da comparação, o escuro pode ser a oportunidade de confirmar a opção pela luz. O triste, uma janela aberta para escolher de novo a alegria. A perda, traço sublinhando o tempo presente, as presenças que ficaram e a gratidão pelo que foi. Como o “poderia ser” não existe, só o que é pode curar. Porque tudo ensina, tudo pode nos acalmar. Desde que os olhos estejam atentos e não confundam por nosso o que é ilusão e, portanto, não é de ninguém.

 

3 comentários para “Atenção e beleza

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