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O jagunço, a bailarina, o travesti e o presidiário

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Era sábado de carnaval, já perto do meio-dia, quando o ônibus parou para um lanche na pequena rodoviária de uma cidade situada bem no meio de coisa nenhuma. O jagunço, a bailarina, o travesti e o presidiário, todos muito bem caracterizados, desembarcaram em animada conversa. Ao tocarem os pés no piso da plataforma de embarque, foi como se a folia tivesse acabado de chegar. Foram entusiasticamente convocados para a roda de samba, instalada no bar do outro lado da rua, e saudados como a encarnação da alegria. Com indisfarçável surpresa, quase um espanto, aceitaram o convite.

Ô abre alas que eu quero passar, ô abre alas que eu quero passar

E tome samba, cerveja gelada e abraços, muitos abraços. O travesti de braço dado com um mulato forte, em estado de avançada embriaguez, virava seus copos com tantos trejeitos que era um milagre não derramar toda a cerveja antes de encontrar a própria boca. Era ele, em suas plumas, brilhos e extravagante batom, o comandante da festa. Até o compenetrado jagunço botou o chapéu de couro sobre a mesa e virou duas ou três doses de cachaça para entrar no clima. O presidiário, em uniforme de listras pretas, cantava e dançava com tanta empolgação que parecia mesmo comemorar a conquista da liberdade. Clássica mas nada ortodoxa, a bailarina desenhou no chão, com a ponta das sapatilhas, um samba inesquecível. E em torno dela logo se formou um cordão de apaixonados.

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval

O espírito de carnaval contagiou toda a freguesia do bar e quem por lá passava. Estavam definitivamente adiadas para quarta-feira as cinzas da rotina. Vencidas as resistência iniciais, nem perceberam, os quatro visitantes, a buzina insistente do ônibus que partia. De lá saíram em bloco pelos bares, a cada parada mais e mais numeroso. Quando, à noite, chegaram ao clube da cidade, para o baile de abertura do carnaval, eram mais de 50. À frente deles o jagunço e uma Maria Bonita improvisada com o chapéu dele e dois pentes de bala atravessados no peito, a bailarina e seu séquito de fãs, o presidiário e um bando de comparsas vestidos como ele, o travesti e seu mulato bêbado. Entrou todo mundo e a festa foi até as 7 da manhã.

Mulata bossa nova, caiu no hully-gully, e só dá ela, iêiêiêiêiê, na passarela

Estavam ainda adormecidos nos jardins e bancos da praça principal quando a namorada do mulato, avisada por não se sabe quem, chegou em coreografia desprovida de qualquer encanto e surpreendeu o quase noivo e seu novo par dormindo de conchinha no meio do gramado. Se atracaram com fúria nunca vista por ali. E foi surgindo tanta gente, rebelada contra tanta novidade ao mesmo tempo, que a briga alastrou-se feito epidemia de febre amarela.

Se você fosse sincera, ôôô Aurora, Olha só que bom que era, ôôô Aurora

A confusão só terminou quando o jagunço sacou de sua pistola, deu uma meia-dúzia de tiros para o alto, tomou de volta sua Maria Bonita dos braços do pai, montou com ela no cavalo de alguém e caíram no mundo. O travesti levou alguns pontos no rosto e fugiu da cidade com o mulato, mesmo na maior ressaca. Protegida por um biombo de corpos masculinos, a bailarina foi levada dali e só reapareceu no final do ano para inaugurar sua academia de balé, financiada por doações de um grupo de entusiastas. Do presidiário, tiveram notícia logo depois de terminada a briga quando a explosão de uma bomba atraiu a multidão à única agência bancária da cidade.

4 comentários para “O jagunço, a bailarina, o travesti e o presidiário

    1. Muito obrigado, Kyara. Você me deixou mesmo na dúvida, mas consultando uma gramática descobri que o substantivo travesti tem os dois gêneros, mas deve carregar o artigo masculino “o” quando se tratar de homem e o feminino “a” quando se tratar de mulher. De qualquer forma, te agradeço a leitura, a atenção e o desejo de ajudar. E ajudou mesmo a esclarecer. Abraços

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