Capitão Sujeira e o cozinheiro chinês

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João Ribeiro faz de sua vida uma grande história. Conto aqui uma pequena parte, com alguns adereços meus pois que não conheço todos os detalhes. Entre os que julgava saber, ele corrigiu um – a profissão do chinês do título -, mas decidi manter o erro original por puro apego. Cozinheiro me parece mais poético e instigante que motorista. Não faço, porém, nenhuma invenção despropositada: as emoções humanas são por demais conhecidas e compartilhadas para permitir criações inverossímeis.

João era mestre-de-obras e torcia a boca para o apelido de Capitão Sujeira, presenteado a ele graças ao hábito de ir para o campo todas as manhãs com uma toalha de rosto branca sobre a cabeça, fixada por um boné. Quando voltava, o pano estava marrom de poeira. De família muito pobre, calçou o primeiro sapato aos 14 anos de idade. Apesar da penúria da infância, adorava ler e conhecia toda a obra de José de Alencar. Amava, ainda, a floresta amazônica e as lutas marciais.

Certa vez, somadas todas as paixões, fixou residência em Rio Branco, Acre, ao final de uma obra de grande porte na região. Montou uma academia de jiu-jitsu – a única da capital – e angariou prestígio com sua força física e conhecimentos literários. Andava no círculo mais letrado e endinheirado. Alguns anos se passaram e apareceu por lá um sujeito muito forte. Apresentou-se como o Sansão do Século XX, rasgou lista telefônica e tampinhas de garrafa, e, por fim, desafiou publicamente o dono da academia durante entrevista a uma emissora de rádio. João usou de todo seu conhecimento contra o brutamontes e o derrotou. Mesmo famoso e admirado, com saudades do mundo, fechou a academia, rompeu o namoro com a filha do dono do cinema e fichou-se em uma obra longe dali. Depois de muitas andanças, chegou ao Iraque.

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            No acampamento da Mendes Junior, em meio ao deserto de argila, descobriu um cozinheiro chinês que praticava, de manhã bem cedo, outra técnica de luta. O homem, magro e de cabelos brancos, aparentava mais de 60 anos e João achou melhor pegar leve. Tomou uma surra. Nos dias seguintes também. E quanto mais apanhava, menos se apiedava da idade avançada do oponente. Os risos da plateia e a constrangedora fragilidade física do cozinheiro o estimulavam a usar cada vez mais a força. E quanto mais usava, mais rápida a derrota. Toda a sua técnica, capaz de nocautear o Sansão do Século XX, era inofensiva diante daquele senhor de sorriso constante e gentil.

Até que João se deu conta de que o chinês nunca tomava a iniciativa de atacá-lo. Apenas esperava os golpes e, com incrível agilidade, desviava a força dirigida contra ele, desequilibrando o agressor. João tornava-se, assim, vítima de seus próprios golpes. Era a ele próprio que atacava. O leitor de José de Alencar deixou , então, de competir e passou a aprender com seu mestre. Sobre a luta e sua metáfora.

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