Vagalumes

Publicado em blogueiros

Você se lembra dos terrenos baldios cobertos de capim e dos porcos que perseguíamos, transformados eles em hipopótamos ferozes e nós em desbravadores destemidos? E da velocidade que alcançávamos correndo sobre as pedras à beira-mar, a habilidade extrema, a sensação de pleno domínio sobre o corpo, a liberdade? Lembra de quanto éramos intensos e felizes? As aventuras sobre os muros, a gente tão pequenininho lá em cima, as pernas curtas vencendo o desafio de nunca cair. Por favor, diga, você se lembra? As conversas intermináveis sobre os primeiros amores? Eu não me esqueço, não me esqueço. O tempo estava em nosso esqueleto, nos pulmões e na retina dos nossos olhos. Era parte de nós e estava em toda parte, em qualquer paisagem. Menos na vida de alguns adultos. De olhos tristes e resignados, eles quicavam de um lado para outro como esferas de pinball.

É esta memória que tento apalpar agora com dedos vacilantes. Não posso esquecer daquele tempo, quando era possível ser, observar e experimentar. Para cada alegria um riso solto, para cada tristeza um olhar surpreso, para cada momento seu sabor. Éramos meninos crescendo e amadurecendo a partir de nossas experiências, muitas delas secretas, rebeldes filhotes da natureza. Até que, em algum momento, me escapa o motivo, aconteceu a tragédia: o tempo escapou de dentro de nós!

Ficamos ocos ou virados do avesso. Não existe mais o tempo de olhar o que nos acontece, o espaço amplo de agir e reagir já não há mais. Na verdade, não se observa mais qualquer intervalo entre um acontecimento e a reação a ele. O tempo de antes, ainda tão parecido com a eternidade, é a impulsividade de agora. Não sobrou uma gota de rebeldia e, talvez por isso, a natureza tenha se afastado tanto de nós. Nada mais tem a chance de brotar: seria preciso esperar e pouca gente ainda sabe esperar. Os dias se sucedem e as experiências não ocorrem. As repetições sim: as mesmas palavras, o mesmo jeito de olhar, milhões de pessoas com hábitos iguais e olhos resignados. Temos medo e celulares! E também a respiração curta e superficial. Os desejos são muitos, diversos, já a frustração é a mesma quando qualquer um deles é saciado. Quicamos de um lado para outro. Onde a paz, Deus aonde, eu quando enfim? Feito esferas de pinball.

crowd-1699137_1280

Se apenas repetimos, nada experimentamos de novo, o que pode ser da memória de nós mesmos, da memória de cada um de nós? Se apenas repetimos, o que no mundo ainda pode ser transformado? Será por isso esta sensação de que a vida não tem jeito? Oh, me desculpe, não se afaste, não desista por favor! É preciso que tudo seja dito e observado. Desligue, por enquanto, o celular e a TV, não clique, não curta nem compartilhe nada, não faça parte de nenhum grupo, desista de encontrar uma hashtag que traduza este momento, pelo menos agora não defenda a democracia nem aponte quem quer que seja pela culpa de tudo. Não diga uma palavra de ordem sequer. Este braço levantado, este punho cerrado podem servir a qualquer causa, esse discurso tonitruante é útil tanto à democracia quanto ao arbítrio. A multidão que marcha e entoa hinos é a mesma, seja qual for o uniforme que vista. O coro canta refrões ao líder de esquerda como cantou ao de direita, ao general e ao deus do consumo. Não percebe? A melodia é igual!

Observe! É nossa única chance: olhe à nossa volta, apenas olhe. Deixe que o ar entre pelas narinas com total atenção, sinta a pulsação marcando compasso nas veias. Vamos abrir espaço, naturalmente e sem esforço, para que a realidade chegue, para que as cores reapareçam. Silêncio, apenas silêncio. Percebe o alívio? Não somos multidão, embora nos faça muita falta as oportunidades de estarmos todos juntos. Como nos estádios lotados em homenagem aos jogadores da Chape ou quando comovidos pelo gesto da atleta, durante os jogos olímpicos, que ampara a outra para cruzarem juntas a linha de chegada.

Bastam estas memórias recentes para que o pensamento se transforme. Veja isso! Não são as palavras corretas e os gostos iguais que dão ordem e segurança ao mundo. Não precisamos de proteção! Como naqueles momentos de solidariedade, todos os olhos bêbados de existência, nenhum risco, nada a temer, todos juntos. O tempo, quase como eternidade, de volta ao interior de cada pessoa. O tempo da rebeldia e do testemunho. Da delicadeza. Esqueçamos as orações e as súplicas, as promessas e os sacrifícios. Tiremos os olhos do horizonte, pelo menos por uns minutos. A luz só pode ser aqui. Mesmo que não seja o grande farol a nos guiar, mesmo que não seja a prometida. Mesmo que tenha a intermitência dos vagalumes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *