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Conto de Natal

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Ele era um homem de riso aberto, expansivo. Ela, terna, de poucas palavras. Quando o marido recebeu a primeira missão e saíram pelo mundo, já tinham cinco filhos, todos pequenos. E era tal seu poder de conciliação e tamanha a capacidade de encontrar soluções para não deixar nenhuma parte desassistida que ao primeiro êxito outros desafios foram dados. E muitos anos se passaram sem poder voltar para casa. As crianças foram crescendo pelo mundo e seguindo suas vidas, cada uma se deixando ficar em um lgar diferente, cada qual em um continente, os cinco.

candle-171368_1920Deixaram de se ver e de se falar por um longo tempo. Um foi museólogo de renome, outro líder religioso e militante político, o
terceiro artista, havia um publicitário bem sucedido e o quinto, funcionário público, vivia como fugitivo de guerra civil. Quando imaginaram os pais muito velhos, trocaram cartas e marcaram uma visita coletiva à casa original, de onde cada um tinha lembranças da primeira infância.

Na data combinada, chegaram ao sobrado, mas não encontraram pai nem mãe. Parecia um encontro de estranhos, até os idiomas eram cinco. Sem saber o que fazer, todos reunidos na sala, resolveram esperar pela chegada dos dois. A conversa começou difícil e cerimoniosa. Apesar da origem comum, o tempo havia construído grandes distâncias entre eles. O publicitário considerou os irmãos deselegantes, para o museólogo pareciam superficiais, o artista não gostou de ser desconhecido para os outros, o religioso lamentou o quanto eles estavam distantes da verdade e o fugitivo refugiou-se no silêncio de suas perdas.
Os pais tardavam. Já faltava assunto quando um percebeu o nariz afilado e por demais insinuante como traço comum entre eles. Todos se olharam com mais atenção para observar a coincidência. E ao traço anatômico descobriu-se agarrada uma história da infância que puxou outra e mais outra. O fugitivo saiu, então, do silêncio e contou tudo o que tinha sofrido nos últimos anos. Foi uma comoção. Um após o outro contou sua história, sempre diversa e exótica para quem ouvia. E, enquanto relatavam, lágrimas desceram, mãos se tocaram, risos se soltaram. Ao cabo de algumas horas, a sala foi tomada por um converseiro ruidoso.

Aconselhados pela fome, resolveram ir para a cozinha. Descobriram a geladeira farta e prepararam uma refeição variada, com um prato típico da cultura de cada um. Compartilharam temperos e sabores. A cada porção chegava à boca uma descoberta. Serviam-se tão generosamente que, ao final, em todos já havia partes antes solitárias nos hábitos individuais. No momento da sobremesa já não se sabiam pelas convicções e lugares de onde vinham, mas pelo que de si continuava no outro. E quanto mais se ofereciam e recebiam, melhor se viam. Quando os pais chegaram, o tempo não mais existia. A separação nunca tinha acontecido.

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