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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Com que ponto se encerra um ano?

Com que ponto se encerra um ano? Ponto final? Ponto de interrogação? Vírgula? Reticências? Talvez com muitos pontos de exclamação!!!

Aqui na Ilha, 2018 não está com cara de que vá terminar em ponto final. Podia ser mais uma vírgula num ano de tantas outras vírgulas, mas acho que está mais para reticências, tipo: … continua na próxima semana, ou continua na primeira semana de janeiro. E na segunda, e na terceira…

E a novela segue…

Há mais de dois anos, em junho de 2016, os súditos da Rainha foram às urnas para escolher entre o ‘sim’ (queremos ficar na Comunidade Europeia) e o ‘não’ (queremos tirar nosso time de campo). O problema é que o tema era complexo demais para uma resposta simples. Era mais para um questionário que levanta várias hipóteses do que um singelo sim ou não. Você quer pizza ou não? Em caso afirmativo, borda fina ou grossa? E se você escolher de borda fina, mas só tiver de borda grossa? Está valendo? Vegetariana ou não? Só temos pizza com embutidos. Pizza vegana está em falta. Sem glúten? Pizza tamanho família ou individual? E se a pizza custar o preço de um banquete, vai querer assim mesmo? E se a pizzaria só puder entregar amanhã? Os ‘se’ são intermináveis no caso do Brexit devido à complexidade do problema que se criou quando os eleitores votaram pela saída da União Europeia. E o pior é que as múltiplas partes não estão na onda de ceder, nem um centímetro sequer.

O plebiscito do Brexit foi mais ou menos assim; dez pessoas foram chamadas às urnas para responder à seguinte pergunta:

– Vocês querem ou não saltar de paraquedas?

Seis votaram pela aventura, fãs da adrenalina, disseram um sonoro SIM! Quatro disseram que estavam bem no chão. Muito bem, obrigado. Entretanto, como se tratava de uma democracia, os dez foram parar num avião. Lá em cima, em pleno voo, o piloto avisou:

– A propósito, só temos três paraquedas, mas, como todo mundo votou pelo salto, todos terão de pular. Boa sorte e salve-se quem puder.

Óbvio que o caos se instalou dentro do avião. Quem vai pegar um paraquedas, quem vai ficar sem? Talvez a melhor solução fosse uma nova votação para decidir o que fazer. Voltar atrás e cancelar a aventura? É mais ou menos assim que o circo se apresenta aqui nesta Ilha. Embora muita gente ainda não tenha se dado conta do número limitado de paraquedas disponíveis.

Desculpa aí, se você acha que a alegoria acima foi muito pesada. Contudo, se você ainda acha que sair da Europa e só sair e pronto, você não entendeu absolutamente nada. Sorry. Aliás, quem entende de fato o que está acontecendo por aqui? São tantas variáveis, tantas reviravoltas que fica difícil. O drama no Brasil anda alto com o ‘solta’, ‘não solta e joga fora a chave da cadeia’, dá até para pensar que encrenca é privilégio do Brasil. Não é não.

O angu aqui na Ilha também anda empelotado. O pior é que as consequências do que for decidido agora no começo de 2019 podem ser muito desastrosas não só para os britânicos, mas também para vários países europeus. Falando assim no coletivo perde um pouco a força. A realidade revelada num documento que o governo foi obrigado a publicar indica que, com a saída da Comunidade Europeia, o país ficará mais pobre, terá menos dinheiro para a saúde, educação, serviços sociais, investimento em pesquisa e tecnologia e por aí vai. Isto tudo afeta diariamente a vida dos cidadãos.

A primeira-ministra Theresa May, que vive num eterno cai-não-cai, ganhou fôlego de um ano, tempo que ela pediu para dar um jeito na bagunça do Brexit. Em troca, não vai ser a líder do partido Conservador na próxima eleição, o que significa que não terá nem a chance de tentar ser a primeira-ministra do país no próximo mandato. Ganhou, mas perdeu. Ironicamente, essa é a temática do momento em que está difícil enxergar vencedores.

 

Este é um daqueles posts em que se tenta amarrar o ano e terminar numa nota positiva. Prometo tentar. Em 2018, foram muitas as comemorações aqui na Ilha para marcar o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. Bem mais perto de mim, 2018 também foi o ano em que uma senhora inglesa adorável, que conheci anos atrás, estaria completando cem anos. Ela costumava dizer que os anos da Segunda Guerra foram os anos dourados de sua vida, os anos em que ela foi mais feliz. O mundo despencando ao seu redor e ela contente, realizada trabalhando numa fazenda, se juntando a um exército de mulheres que foram para o campo para garantir que não faltasse alimento nesta Ilha tão dependente do continente. Deve haver alguma mensagem aí. Não? Sim! É possível encontrar felicidade em tempos turbulentos e divididos. É evidente que a política, a economia, a paz (ou a falta dela) têm suas consequências na vida de cada um de nós. Só sendo muito descolado da realidade, muito alienado ou muito elevado para não se afetar. Não sentir uma coceira aqui e ali.

Vivemos num tempo no qual a indignação é cutucada ao ponto de ferir, de rasgar a pele. Nossa estadia no mundo virtual não colabora. Qual é pedrada do dia? Ou melhor, qual é a bordoada do momento? Todo dia tem. Toda hora tem. Nem precisa caçar. Intolerâncias, maldades, injustiças, falta de compaixão. A estupidez sem fronteiras. Como viver assim com o ponteiro o tempo todo no vermelho? O motor aguenta rodar sempre fervendo em velocidade acelerada?

Não é de admirar que estejamos cansados, queimados, desgastados, irritados e impacientes. Desamigados. Decepcionados com os amigos e familiares que não compartilham a mesma trincheira na qual tentamos nos proteger da artilharia pesada. A grande pergunta é:

É possível ser feliz neste fogo cruzado?

É.

Mais do que isso, é um exercício interminável e consciente de busca do bem-estar. De estar. E bem. De permanência. De presença. De estar presente, de ouvidos e coração abertos para tentar compreender a diferença, ainda que ela doa uma dor ardida.

Marjorie, minha amiga na sabedoria de seus quase cem anos (morreu aos 96), era uma prova, um exemplo de que, mesmo em tempos difíceis, é possível encontrar contentamento e paz de espírito. Ela foi uma mulher dona de uma qualidade preciosa: aceitava as pessoas do jeito que eram, sem julgamentos. Não precisou fazer ‘faxina’ na lista de amigos. Sequer tinha televisão em casa, quanto mais lista de amigos. Um dos traços mais admiráveis de seu caráter era a aceitação do outro. Ela não esperava do próximo o que ele não era capaz de dar, porque sabia se satisfazer com o que ele tinha de bom. As muitas camadas, as boas e as ruins, que cada um de nós tem. Ninguém é obrigado a conviver socialmente com quem não gosta. Em outras situações da vida essa escolha nem sempre é possível.

Meu 2018 foi um desafio pessoal de aceitar o pensamento tão divergente do meu em pessoas por quem tenho carinho e história compartilhada. Não foi fácil. Não é fácil. Tive lá meus momentos de querer esgoelar um e outro por suas ideias tão diferentes das minhas. No meio do ano fui ao Brasil rever muitas pessoas queridas. Algumas delas estavam perigando entrar na minha lista de pessoas non gratas por causa das opiniões que andaram revelando nas mídias sociais, sem que ninguém tivesse pedido. Entretanto, os reencontros, a afetividade e a história partilhada com essas pessoas me fez pensar nas tais camadas que cada um de nós tem. Foi bom sentir o calor dessas amizades históricas. E, sem o convívio, sem o contato, sem o papo e as novas histórias, certamente muitas trocas boas não teriam acontecido. Eu teria me ‘grudado’ apenas nas camadas desagradáveis.

Imagino que para muita gente 2018 foi de fato um ano para botar pontos finais em relacionamentos sociais que não agradavam. Quem já esteve apaixonado e se decepcionou com o outro, olhou na cara dele (ou dela) depois do fim do relacionamento e não reconheceu a pessoa por quem um dia nutriu tanta admiração e amor, entende o que estou querendo dizer. No fundo, as pessoas não mudam tanto assim, não se tornam más porque não manifestam a mesma visão de mundo que nós.

Se tem uma coisa que todos temos em comum é a vontade de acertar e de viver bem. Endurecer, alimentar as intolerâncias, falar alto e não escutar só torna a vida mais difícil e pesada. Temos que tentar buscar mecanismos de viver bem. Cotidianamente. Afinal, como dizia Jo Cox, uma parlamentar aqui da Ilha assassinada por um extremista nacionalista pouco antes do referendo do Brexit, “temos muito mais o que nos une do que o que nos separa”. Ano após ano, com pontos finais, vírgulas, reticências ou exclamações!

Feliz natal e um 2019 de encontros enriquecedores, paz de espírito, leveza de alma e alegria de viver para todos.

 

 

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4 comentários em “Com que ponto se encerra um ano?

    1. Oi, Marcelo. Vejo muitas pesquisas sobre o possível resultado de um novo plebiscito. A maioria indica que não há garantia de que o resultado seria diferente do que foi em 2016. Semana passada, vi uma que indicava vitória dos que querem permanecer na Europa com uma margem de 9 pontos. Pessoalmente, tenho minhas dúvidas. Acredito que os que querem sair ainda não se deram conta do ‘número limitado de paraquedas’. Outro dia numa festa que fui, havia um sujeito que defendia a saída, mesmo que, nas palavras dele, “os efeitos sejam catastróficos para o país”. Em outras palavras: quero a pizza ainda que custe o valor de um banquete cinco estrelas e que nos deixe quebrados. Cada vez que alguém vinha com um argumento lógico, ele respondia, “se me cortarem, verás que meu sangue é azul, vermelho e branco”, um jargão nacionalista que, cá entre nós, não significa absolutamente nada além de uma frase feita. Tá cheio disso por aí. A primeira-ministra conseguiu fechar uma proposta de acordo de retirada com a Comunidade Europeia. Por aqui, ninguém gostou. Nem os parlamentares do partido dela, que tentaram uma rasteira, nem a oposição, os escoceses, os irlandeses do norte e companhia limitada. Se o Parlamento não aprovar a proposta, e no momento não há muitos sinais de que vá, pode ser que se chegue a uma sinuca de bico chamada No Deal, ou seja, sem acordo. Aí, meu caro, a situação vai ficar mais feia para esta Ilha. Alguns parlamentares, mesmo do partido de May, começam a aventar a possibilidade de um referendo popular para saber se no caso de não se chegar a um acordo de retirada se o povo quer mesmo sair da Europa. Eu adoraria que essa situação nunca tivesse existido, mas também não consigo avaliar o peso que teria se um novo plebiscito anulasse a vontade popular expressada no primeiro. Já viu o tamanho da encrenca, né? Feliz Natal, Marcelo e tudo de bom em 19.

  1. Duda,

    Adoro seus textos, tanto no conteúdo como na forma de escrever! Parabéns pelo Blog!!!
    A metáfora de paraquedas ficou perfeita para a situação de Brexit e penso que serviria muito bem também para a última eleição na Brasil.

    Tenham boas festas e muita elevação de espírito em 2019!

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