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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Ofensas e liberdades


 2018 marca o primeiro centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. Em Londres, ao redor da torre que leva o nome da cidade, dez mil tochas foram instaladas no fosso que circula o castelo. Todas as noites até o domingo, quando se comemora o Dia da Lembrança, as tochas serão acessas. Leva quase uma hora para um batalhão de voluntários acender cada uma delas. O resultado é de tirar o folego e provocar mais do que reflexo: reflexão. As chamas representam as vidas que se perderam durante o conflito.

Torre de Londres

2018 também marca os oitenta anos da ‘Kristallnacht’, aNoite dos Cristais’, quando na Alemanha nazista os judeus tiveram certeza de que seu futuro no país seria de horror. Nos dias 9 e 10 de novembro de 1938, mais de 250 sinagogas foram queimadas, cerca de 7.000 estabelecimentos comerciais judaicos destruídos, dezenas de judeus foram mortos. Cemitérios, hospitais, escolas e casas judias saqueados. 30.000 judeus alemães do sexo masculino foram presos pelo “crime” de serem judeus, e enviados a campos de concentração onde centenas acabaram morrendo. Estabelecimentos comerciais de propriedade de judeus não puderam ser reabertos, exceto os que passaram a ser gerenciados por não-judeus. Toques de recolher foram impostos, limitando as horas do dia em que os judeus podiam sair de suas casas. O clima estava inflamado, a população raivosa queria se vingar do assassinato de um oficial alemão cometido por um judeu em Paris. Foi o estopim que faltava para o ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, detonar os planejados pogroms, ou a chacina de Judeus.

Após a “Noite dos Cristais”, a vida de adolescentes e crianças judias se tornou ainda mais difícil: além de serem barrados em museus, parques e piscinas, também foram expulsos das escolas públicas. Os que podiam estudar eram colocados no fundo da sala e não podiam sequer abrir a boca. As famílias judias tentavam desesperadamente sair da Alemanha e da Áustria.

Quem pôde escapou, mas havia poucos países dispostos a receber os refugiados. Por isso, grupos religiosos e a sociedade civil (principalmente judeus), que viviam fora da Alemanha e dos países sob o controle de Hitler, organizaram a retirada de crianças que corriam risco de vida. Dez mil delas foram recebidas por famílias aqui na Ilha. Muitas chegaram de trem no chamado Kindertransport, o transporte de crianças. Estas ‘crianças’ hoje têm entre 80 e 90 anos. Uma exposição do Museu Judaico de Londres coletou depoimentos destes sobreviventes. O resultado, juntamente com palestras e grupos de discussão, faz parte de uma grande exposição no museu. O jornal The Guardian tem publicado diariamente alguns destes depoimentos.

Os sobreviventes falam sobre a ‘síndrome dos quarenta anos’, muitos levaram quatro décadas para conseguirem falar sobre o trauma de serem colocados num trem, com estranhos, com destino a um país estrangeiro que falava uma língua que eles não dominavam e, o pior de tudo, o fato de que nunca mais tornariam a ver seus pais e sua família. Alguns deles, apesar da idade avançada, até hoje participam de eventos públicos, muitos deles em escolas, para passar uma mensagem muita clara: cuidado com o extremismo, com a divisão e a intolerância, estes sentimentos despertam o que há de pior nos seres humanos.

Além do Dia da Lembrança, em novembro os súditos da Rainha também comemoram a Noite de Guy Fawkes. Para saber mais sobre esta tradição, clique aqui. Muitos fogos de artifício enfeitam o céu e uma enorme fogueira é acessa para queimar o traidor da Nação, uma versão local da malhação do Judas. O caso é que o cinco de novembro deste ano está rendendo até hoje. Um grupo de seis amigos resolveu inovar: fez um modelo do Grenfell Tower, o prédio de moradias populares que ardeu no verão do ano passado, matando setenta e duas pessoas. O modelo tinha até uns bonequinhos nas janelas. Ao incendiarem o arranha-céu de papelão, os amigos rindo histericamente produziram um diálogo bizarro imitando as vozes dos moradores desesperados, presos no edifício em chamas:

– “Socorro, socorro, me ajuda”

– “Pule da janela!”

– “Isto é o que acontece quando você não paga o aluguel!”

Modelo do Grenfell Tower queimado

Se houvesse um Troféu Tosco para a estupidez sem fronteiras, eles teriam vencido. Ao invés disso, estão esfriando (ou esquentando) a cabeça na cadeia. A ‘brincadeira’ foi filmada e distribuída num grupo de Whatsapp. Uma das pessoas, que recebeu o vídeo, decidiu torná-lo público e aí, para viralizar foi um pulo. Ainda não se sabe se eles serão indiciados criminalmente ou não, mas já sentem o peso da condenação popular por seu ato absurdamente insensível.

A grande questão é se eles devem ou não responder a um processo criminal. Ninguém nega o fato de que o ‘espetáculo’ gravado foi grotesco e ofensivo para muitas pessoas que perderam parentes e amigos no incêndio. Mas uma ‘brincadeira de mau gosto’, que aconteceu no quintal da casa de um deles, não num lugar público, e que foi compartilhada (inicialmente) para um grupo restrito de amigos é ou não é crime? Onde fica a liberdade de expressão? É isso o que a polícia e os promotores públicos têm que decidir rapidamente.

Nada em sociedade acontece descolado da realidade. É preciso ver o pano de fundo deste caso. Um inquérito investiga até hoje essa tragédia que matou 72 pessoas e deixou centenas de desabrigados. Com exceção de duas pessoas, que tentaram fraudar o governo pedindo compensações, sendo que elas nunca viveram no prédio, até hoje ninguém foi para a prisão. Ainda não se tem um responsável. A ferida está bem aberta. Outro ponto importante, no Grenfell moravam famílias de baixa renda, muitas primeira ou segunda gerações de imigrantes neste país. Muitas islâmicas. O tom da ‘brincadeira’ dos incendiários da Noite da Fogueira deixa claro no mínimo um preconceito racial. Daí muitos defenderem a ideia de que eles deveriam ser enquadrados por crimes de ódio.

A Primeira-Ministra Theresa May condenou veementemente o episódio do dia cinco. Mas é crime ou, não é? Ouvi um debate interessante sobre o assunto. Uma parlamentar, que está acompanhando o drama dos sobreviventes do Grenfell disse que é. Que o vídeo causou muita dor e sofrimento, por isso os culpados devem ser criminalmente responsabilizados. Uma advogada dos Direitos Humanos foi muito mais cautelosa: não há dúvida de que as ações retratadas no vídeo devem ser condenadas publicamente, mas é importante que as pessoas tenham a liberdade de se expressarem em sua vida privada (ela lembrou que o fato não ocorreu num lugar público e que nunca foi a intenção dos envolvidos que ele se tornasse de conhecimento público), eles não estavam incitando o público à cometer atos violentos ou discriminatórios.

O Brexit, a eleição do presidente Trump e a de Bolsonaro no Brasil têm um fio condutor em comum: estes três eventos evidenciaram divisões profundas nas populações destes países. Os processos sociais são dinâmicos, é duro conviver com as diferenças de opinião. É fácil cair na tentação de ser radical, de ter certezas, de fincar o pé e de tentar proteger um ponto de vista. Não poder expressar uma opinião, por mais abjeta que seja, no quintal de casa, em privado, faz com que a pessoa mude seu ponto de vista? Ou resulta em mais ressentimento?  É bom que a sociedade condene o vídeo, talvez faça com que as pessoas parem para pensar que atitudes insensatas como essas podem ferir muitas pessoas. Mas é caso de polícia?

Este começo de novembro aqui na Ilha, com tantas oportunidades para olhar para o passado e refletir, não deveria ser desperdiçado. Afinal, como bem sabem os sobreviventes do Kindertransport, nada está garantido quando a intolerância cresce e o diálogo cessa. Diálogo, é bom lembrar, pressupõe dois ou mais interlocutores.

 

 

 

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