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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Suicídio, como falar?

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Os trilhos do metrô de Londres correm pelas profundezas da cidade. Algumas estações parecem mais profundas que outras. Do topo das escadas rolantes, uma viagem inclinada e longa, que deixa a superfície e o barulho das ruas cada vez mais distantes. A sensação de estar nos subterrâneos da cidade não me incomoda, mas já ouvi algumas pessoas reclamando de claustrofobia, apesar dos corredores largos.

Num domingo desses, numa estação quase deserta, notei uma moça encostada numa parede, que se curvava perto do teto. Ela estava fincada no chão, escorada como que para não desabar e não tirava os olhos de mim e da minha filha. A tensão aumentava, à medida em que nos aproximávamos dela. No último segundo, ela deu o bote: nos abordou. Minha primeira reação foi achar que ela ia pedir alguma coisa, dinheiro talvez. Realmente ela tinha um pedido a fazer. Um que eu não esperava.

Numa fala afobada, ela perguntou se eu ia tomar o trem da linha preta. Disse que sim. Ela então quase implorou: posso andar com vocês? Respondi que não tinha problema e, sem saber bem porque, diminuí  o passo. Ela queria apressar. Tinha urgência em sair dali. A moça era bem jovem, mais do que eu imaginara, instantes atrás. Estudante, pelo jeito de se vestir e a bolsa cheia de livros. O sotaque era de quem tem pedigree. Ela contou, como se vomitasse palavras ensaiadas, que estava sofrendo um ataque de Síndrome do Pânico.

Minha mão direita segurava a mão da minha filha, que estava de olhos arregalados. Ofereci a mão livre para moça. Ela não respondeu com palavras, mas agarrou a minha mão. A mão dela estava ensopada e gelada. Apareceu mais uma escada rolante no caminho. Ela ficou de pé no degrau abaixo do nosso, olhando para mim, evitando olhar para baixo. Então contou que há muito tempo não se sentia assim, mas que estava muito estressada e sobrecarregada. Tentei acalmá-la. Disse que não tinha problema nenhum e que ela tinha agido muito bem ao pedir ajuda. Pelo nível de ansiedade no olhar dela, tenho minhas dúvidas se consegui confortá-la.

Ao pé da escada rolante, havia uma parede separando os trilhos dos trens; um que iria para o norte e outro para o sul. Na plataforma do Norte, havia um metrô prestes a sair. A moça bateu os olhos no trem, soltou minha mão e correu na rapidez, que leva um pássaro a voar, assim que a porta da gaiola se abre. Ela voou para o vagão e as portas se fecharam, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, que pudesse ajuda-la. Minha filha e eu tomamos nosso trem, com uma estranha sensação de vazio.

Nesta época midiática em que vivemos, um novo calendário frenético e igualmente efêmero nos intima a tomar parte em campanhas, que brotam por todos os cabos. A bola da vez é a prevenção do suicídio. Já reparou numas fitinhas amarelas por aí? Pois é, é isso. Não é a primeira vez em que o assunto ganha espaço neste ano. A série os ‘13 porquês’ deu muito pano para manga.

Setembro amarelo

 

Suicídio, quando eu estava na faculdade de jornalismo, merecia um capítulo especial. Aprendíamos (talvez ainda seja assim hoje em dia) os riscos de reportar as mortes por suicídio, por causa do chamado ‘Efeito Werther’. Werther é um personagem fictício do escritor alemão Goethe, de um livro publicado em 1774. O jovem atormentado tira a própria vida, depois de levar um pé no traseiro. Logo após a publicação do livro, aconteceu um fenômeno na Alemanha: inspirados pela escrita primorosa de Goethe, muitos jovens, rejeitados por suas amadas, começaram a copiar o último ato de Werther, como se seguissem um script, se matavam da mesma forma como o personagem acabou com a própria vida.

Para escrever este post, fui pesquisar para saber o tamanho do problema aqui na Ilha. Antes de chegar aos números oficiais sobre suicídios, fui direcionada a vários endereços eletrônicos onde eu, uma pessoa que pesquisa na internet, poderia estar buscando inspiração, ou validação, para meus possíveis pensamentos suicidas. Os sites ofereciam apoio e aconselhamento a quem se sente fragilizado. Ficou claro que existe, por parte de entidades responsáveis e sérias, uma preocupação com o ‘Efeito Werther’.

Já ouvi e li o argumento de que temos que parar de varrer o problema do suicídio para debaixo do tapete e que devemos enfrentar o tabu. Aí é que a história fica mais complicada. Como fazer isso e, ao mesmo tempo não noticiar os suicídios?

Uma coisa é noticiar, outra coisa é atuar responsavelmente na prevenção. É preciso ir devagar com o andor. Dizer que o número de suicídios é tanto para cada cem mil habitantes é agir na prevenção?

A página dos ‘Samaritans’ (os Samaritanos, uma entidade de caridade, que lida na linha de frente da prevenção do suicídio) traz um guia, que deveria ser copiado e distribuído nas redações de todos os jornais e  levada em conta por aqueles, que realmente se importam com o assunto. Vou reproduzir aqui algumas das recomendações:

Primeira: pense no impacto que a notícia vai ter em seus leitores. Como irá afetar, por exemplo, quem está enfrentando uma fase de depressão. Segundo, não descreva ou dê detalhes sobre o suicídio noticiado (dizer que fulano tomou ‘x’ comprimidos do medicamento ‘y’, nem pensar), não interessa o método e nunca, jamais e em tempo algum insira a informação sobre como foi a morte (rápida, dolorosa, etc). Terceiro, não forneça informações do tipo, o sujeito estava deprimido, porque tinha uma dívida enorme. Outras pessoas na mesma situação podem se identificar e acreditar que essa seja a melhor solução. Quem faz trabalho sério de prevenção de suicídio sabe que não é apenas um fator isolado e único que leva uma pessoa a se matar. Quarto, ao noticiar um suicídio, evite criar o senso de coletividade, que torna o comportamento normal. Por exemplo, fulano pulou da ponte dos suicidas. A tal ‘ponte dos suicidas’ pode ser um atrativo para quem não está bem. Por isso, não diga, mais um jovem se joga da ponte ‘x’. Quinto, nada de sensacionalismos exagerados na linguagem. Atenha-se aos fatos e ponto. Sexto, evite dar a notícia na primeira página (no caso da mídia impressa) e tenha muito cuidado com a escolha de imagens e fotografias. Sétimo, não reporte as notas/cartas dos suicidas. Oitavo, tome cuidado para não promover os motivos do suicida: fulana se matou para que todos soubessem que ela era vítima de bullying. Daí minhas reservas com a série ‘Os 13 porquês’ da Netflix. Suicídio não pode e nem deve ser encarado como solução para nada. Nem vingança, muito menos uma ‘causa nobre’.

Ter um cuidado extra ao noticiar os casos de suicídio é diferente de evitar falar sobre o assunto. É preciso acabar com a imagem de que quem contempla um suicídio é louco. Os príncipes William e Harry, herdeiros do trono de Elizabeth, têm atuado ativamente para destacar a importância de agir e falar sobre os problemas psicológicos e em especial a depressão. Harry deu uma entrevista para contar que lutou contra a depressão durante anos, depois da morte da mãe. Resolvi não divulgar o número de suicídios nesta Ilha, mas acho importante dizer que, três em cada quatro suicidas por aqui são homens. Em geral, são eles que encontram mais dificuldade em falar sobre seus medos, problemas e aflições. Talvez pela pressão social, que ainda dita que homem não chora. Por isso, o exemplo dos príncipes é tão importante.

Nas imagens recentes do furacão Irma, se nota muitas árvores caídas e galhos destruídos. Já os coqueiros e as palmeiras, que parecem se descabelar na tormenta, ficam de pé. Parece que é o caso de aprender a se curvar, admitir as fraquezas e se descabelar, para ter chances de resistir ao mau tempo. De vez em quando, ainda penso na mocinha do metrô. Gostaria de saber se ela está bem. No fundo, me conforta um pouco, que ela tenha pedido ajuda e segurado a minha mão.

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6 comentários em “Suicídio, como falar?

  1. Nossa, muito obrigada pelo texto breve, esclarecedor e humano. Você disse dados técnicos, esclareceu o porquê do assunto ser ainda um tabu, permitiu-nos adentrá-lo com profundidade e ética, e contou um caso pessoal onde nos aproxima do que muitas vezes não conseguimos enxergar e está acontecendo do nosso lado todos os dias.

  2. Também gostaria de saber como ficou a moça. O que sei é que você a acolheu em um momento de evidente desespero. Não há como exagerar a importância desse gesto.

    Posso também repetir as palavras do comentário anterior, você abordou um tema árduo com extrema sensibilidade.

    Por fim, fiquei impressionado, mas não realmente surpreso, com a estatística que você citou. Muitas possibilidade são abertas aos homens; expressar emoções não é uma delas. É um caminho longo, mas necessário, aprender a lidar com isso.

    1. Obrigada, Marcus. Este não é exatamente um tema leve, principalmente para os homens. Mudar comportamentos requer vontade, coragem, mas, acima de tudo, saber que existem opções, o que, num momento de dificuldade, é difícil de se enxergar.

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