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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Recessão DIY

O sujeito acha na rua uma mesinha velha, caidinha. Leva para casa, lixa, pinta e cria um móvel Boho (mistura de estilo boêmio com hippie). Olha para a peça e confirma o que já sabia: ela só precisava de um TLC (tender loving care), um cuidado amoroso e terno. Orgulhoso, ele resolve descansar um pouco. Então, põe o móvel na sala e, sobre a mesa, deixa um prato com um BLT (Bacon, lettuce and tomato), o sanduíche de bacon, alface e tomate e uma ‘cuppa’ (cup of tea), o indefectível chazinho inglês de todos os dias. Aproveita para assistir a um bom ‘RomCom’ ou um ‘Sci-fi’, uma comédia romântica qualquer ou um filme de ficção científica, dependendo do que lhe apetecer no momento.

Os britânicos são doidinhos por formar novas palavras. Mas eles são tarados mesmo pelas siglas. Quem quiser sobreviver bem por aqui, tem que dominar as abreviaturas. Uma delas é fundamental: o DIY. Pronuncia-se ‘ Di-Ai-Uai’  e não é invenção de mineiro. O ‘Do it Yourself ‘ ou ‘Faça você mesmo’ para mim resume um bocado da mentalidade local. Por que contratar alguém para pintar a casa, passar a roupa, cuidar do jardim, se você mesmo pode fazer tudo isso? Quem pode pagar pela mão-de-obra quase que tem que se desculpar para não passar recibo de preguiçoso.

Desde o 23 de junho, a expressão DIY ganhou outro sentido. O que se diz agora é que, ao votar pelo Brexit, a saída da União Europeia, esse país corre o risco de uma recessão DIY. Atirou nos próprios pés. Apertou o botão ‘detonar’ da economia e, desta vez, nem dá para botar a culpa na conjuntura mundial ou nos políticos de colarinho branco. Foi uma decisão popular.

Ainda me lembro quando em 2012, o Brasil passou na frente do Grã-Bretanha e se tornou a sexta maior economia do mundo. Foi a maior dor de cotovelo por aqui. A bonança brasileira não durou e os britânicos acabaram recuperando seu lugar entre as economias mais poderosas do planeta. Depois de anos de austeridade e a promessa de equilibrar as finanças, não gastar mais do que arrecada, o governo de Theresa May anunciou que o nome do jogo não é mais sair do vermelho. Ela sabe que a meta pré-Brexit é impossível agora.

 

Libra fraca, euro forte

Essa semana, a dor de cotovelo ardeu ainda mais quando a libra passou a valer menos que o euro em algumas lojas de câmbio. Com o dinheiro valendo menos, os produtos importados custam mais. O problema é que essa Ilha importa quase de tudo. Uma disputa escancarada entre a multinacional Unilever e o Tesco, a maior rede de supermercados neste lado do Canal da Mancha, fez os britânicos mais velhos se lembrarem dos tempos do racionamento de mercadorias imposto no pós-guerra.

Produtos-orgulho-nacional, daqueles que definem o caráter de uma nação, sumiram das prateleiras. Um deles é o Marmite que, como o pequi, é um caso de ame ou odeie. O Marmite é um gosto que ainda não adquiri. Provei mais de uma vez, mas não desce. Tem a aparência viscosa de uma geleia de chocolate. As aparências enganam. Marmite existe desde o século dezenove. A pasta escura e grudenta feita de levedura é um subproduto da fabricação de cerveja. Tem gosto de remédio amargo, com uma pitada de sal.

Ame ou odeie

Mas foi preciso bem mais que uma pitada de açúcar para solucionar o impasse gerado pela queda da libra. O Tesco queria continuar pagando o mesmo valor pelas mercadorias que vão de sabão em pó à margarina, passando pela verdadeira maionese. A Unilever dizia que não. Talvez a solução fosse repassar o aumento nos custos para o consumidor. Arriscado, num tempo em que a batalha dos supermercados é feroz.

A questão é que o mercado não gosta de incertezas. A maioria do eleitorado britânico disse nas urnas que quer sair da Comunidade Europeia. Para que isso aconteça, o governo precisa invocar o famoso artigo 50 do Tratado de Lisboa. No começo do mês, a primeira-ministra disse, na convenção anual do partido Conservador, que até o fim de março do ano que vem, ela vai oficializar a saída do país do bloco europeu.  Enquanto isso, ninguém pode fazer muito mais do que especular.

Essa semana, li num grupo de brasileiros no Facebook, que está garantido que quem tem um passaporte europeu e está aqui trabalhando poderá ficar. Pode ser que sim. Pode ser que não. Nada está acertado. Falta saber, por exemplo, os termos da retirada britânica. Além de recessão DIY, entraram nas discussões os termos Soft e Hard Brexit, ou seja, vai ser uma debandada branda ou para valer?

O Soft Brexit, ou o modelito light, é o favorito dos que não queriam a saída, porque acreditam que vai fazer menos estragos na economia. Prevê que os acordos entre a Grã-Bretanha e a União Europeia continuem valendo. Os produtos que este país exporta para Europa (e que representa 44% de tudo que é exportado) e os que importa (53% das importações) não estarão sujeitos aos controles de fronteira. Mantêm-se o livre movimento de mercadorias, serviços, capital e cidadãos (o pilar da União Europeia). O que significa que os imigrantes europeus vão continuar a ter o direito de viver e trabalhar aqui. Em outras palavras, em termos de relações comerciais e imigração, continua tudo com antes. Entretanto, este país perde o direito de voto nas decisões do grupo.

Outro dia, ouvi uma confissão de um padre. Ele me disse que a Igreja está ‘importando’ padres de outros países, porque falta quem queira topar o desafio aqui na Ilha. O último ponto do Soft Brexit é fundamental para o funcionamento da economia, dizem os defensores da ideia. Sem a mão-de-obra especializada, que vem da Europa, a economia para. Mas não foi justamente para frear a imigração que muita gente votou pelo Brexit?

Um conhecido nosso, um aposentado, justificou seu voto pela saída. Ele mora numa rua de casas de alto padrão. Comprou a propriedade décadas atrás, antes da disparada nos preços dos imóveis. Contou que hoje em dia não teria como morar lá, se tivesse que comprar a casa. Estávamos na calçada em frente à casa dele, quando ele disse para mim, uma brasileira e meu marido um neozelandês, que o vizinho do lado era do Sri-Lanka e que a casa do outro lado da rua havia sido vendida a um paquistanês. ‘Precisamos barrar a imigração’, ele disse. O que a saída da Comunidade Europeia vai mudar na entrada de cidadãos do Sri-Lanka, Paquistão, Nova Zelândia ou Brasil? Até onde sei, nenhum desses países faz parte da União Europeia. Quando apontamos o óbvio, ele repetiu, como se não tivesse escutado: há imigrantes demais neste país. Escrevi um post sobre o assunto. Clique aqui para ler.

 

Brexit

Os que votaram pelo Brexit consideram a versão soft uma traição. O plebiscito só dava duas opções, sair ou ficar. O que fazer com a encrenca não estava em jogo. Talvez não faça diferença mesmo. O presidente do Conselho Europeu disse que essa discussão não existe. Para Donald Tusk,  é uma retirada total ou a permanência no grupo. Ele afirmou que o restante da Comunidade, os vinte e sete países membros, não vão comprar a ideia de que a Grã-Bretanha poderia ficar com o bolo e devorá-lo quando quisesse.  É tudo ou nada. Esse foi o recado de Tusk.

Há quem diga: que venha o tudo. A Europa tem medidas protecionistas demais. Vamos poder comprar manteiga da Nova Zelândia, sem pagar taxas altíssimas. Se esquecem que a mesma política de taxações e subsídios é benéfica para os fazendeiros daqui também.

Um grupo de advogados recolheu quase duzentas mil libras em doações para processar os políticos, que eles consideraram Pinóquios, durante o período que antecedeu o plebiscito. Muitos deles fizeram afirmações falsas durante a campanha pelo Brexit. A mais famosa: os 350 milhões de libras, que esse país manda toda semana para a Comunidade Europeia, seriam transferidos para o Serviço Nacional de Saúde. Adivinhe só: era mentira. Cuidado com o nariz grande!

Outros defendem que, antes de invocar o Artigo 50, o Parlamento tem que aprovar o que foi decidido nas urnas. O que cria um problema: a democracia representativa vale mais do que a direta? Então, por que fazer uma consulta popular, se não era a intenção respeitar a vontade da maioria? Como fica a orgulhosa democracia britânica? Sinuca de bico.

Escrever sobre economia, citar números e falar de recessão é broxante para muita gente. É um assunto frio, sem alma, que muitas vezes esconde uma realidade muito mais dura. Por trás das negociações, está em jogo o bem-estar de muitos cidadãos, seus empregos, a qualidade do serviço de saúde a que têm acesso e as escolas de seus filhos.

 

Será que, depois de março, as repercussões do Brexit vão provocar um RIP (Rest in Peace – descanse em paz) dos tempos de fartura e abundância? Ou este país vai com muito TLC encontrar uma solução DIY para uma provável recessão DIY?

 

TBC … (to be confirmed), a ser confirmado…

 

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3 comentários em “Recessão DIY

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