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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Vai um sabãozinho?

“Are you a washer or a walker?”

A língua inglesa é um paraíso para os redatores de publicidade. Tão direta, tão simples. Com poucas palavras se conta uma história, passa-se uma mensagem. Anos atrás, um comercial de tevê perguntava: “Are you a washer or a walker”? O que pode ser traduzido mais ou menos como: Você é do tipo que lava, ou que vai embora? Era uma propaganda de sabonete. O cenário: um banheiro público, de onde algumas pessoas saiam sem antes lavarem as mãos.

De acordo com o Global Hygene Council, lavar as mãos depois de usar o sanitário reduz em 50% o risco de infecções, que causam diarreia. Mesmo assim, 62% dos homens e 38% das mulheres desta Ilha são ‘walkers’, se esquecem de lavar as mãos, de acordo com uma pesquisa conduzida por uma companhia que produz equipamentos para banheiros públicos. Imagino que num banheiro público, onde são observadas por outras pessoas, muita gente se comporte de um jeito que não costuma fazer em casa…

Assim como o paladar, descobri morando fora, os hábitos de higiene também são extremamente culturais. O que é aceitável em um país é motivo de desdém em outros. Quem nunca ouviu a história do brasileiro que chegou na Europa e teve que engolir alguém dizendo: “os brasileiros tomam tantos banhos, porque são mais sujos”.

Uma amiga, tão inglesa quanto chá com leite, foi passar as férias no estrangeiro. Voltou contando que havia um estranho objeto  (um bidê),  no banheiro do hotel onde a família havia se hospedado. Quando outra amiga explicou que bidê não era banheirinha para lavar os pés, ela fez a maior cara de nojo. Na casa dela, o chão do banheiro é de carpete. Cada país, um hábito.

Uma ocasião, recebi três colegas da minha filha para dormir aqui em casa. Elas estavam muito ocupadas brincando. Ficou tarde e mandei todo mundo para cama sem banho. Para falar a verdade, fiquei com a maior preguiça da bagunça que elas iriam fazer no banheiro e da eternidade que ia ser para elas se banharem. No dia seguinte, ao devolver as anjinhas, pedi desculpas para as respectivas mães. Sorry, elas foram dormir sem banho. As mães me olharam como se eu fosse maluca. Que conversa é essa de banho? Aliás, semanas depois, uma conhecida inglesa comentou comigo que achou estranhíssimo que a filha tinha ido dormir na casa de uma amiga estrangeira e a mãe da criança queria que a menina tomasse banho antes de dormir. Que absurdo! Foi depois dessa conversa que descobri que, ao ‘pular’ o banho, havia passado raspando num teste que nem sabia que tinha entrado. Graças ao meu desleixo, fui promovida com honras. Troféu cascuda para mim.

O fato é que muitas crianças (e adultos também) não tomam banho todos os dias aqui na Ilha. Por isso, o jornal ‘The Independent’ publicou uma reportagem com o título: ‘Com que frequência deveríamos nos banhar? ’ E o subtítulo: “Mais e mais pessoas estão escolhendo tomar banho todos os dias” 

Parem as máquinas!

Segundo a publicação, quatro em cada cinco mulheres não tomam banho diariamente. Um terço delas confessou que, às vezes, passa até três dias sem que o corpo veja água. Um outro estudo, desta vez das Universidades de Edimburgo, Manchester e Southhampton diz que não é verdade. Três quartos das mulheres desta Ilha tomam banho dia sim e dia também.

Faz parte do kit de higiene local uma ‘flannel’, que é uma toalhinha de 30 por 30 centímetros. Muita gente usa as toalhinhas para limpar as partes – uma alternativa ao banho completo. O problema com as ‘flanelinhas’ é que elas nunca têm tempo de secar de verdade e acabam adquirindo uma fragrância característica: Eau-de-cachorrô-molhadô. Murrinha mesmo.

Segundo o professor de dermatologia, Stephen Schumack, ouvido pelo ‘The Independent’, foi apenas nos últimos 50, 60 anos, que o banho se tornou tão importante. Foi o advento do chuveiro nas casas, que mudou os hábitos. Para ele, ninguém precisa de tanto banho. Banho é uma pressão social para que as pessoas cheirem bem.

Os Cascões que me perdoem. Mas taí uma pressão social que eu concordo. Já aconteceu, mais de uma vez, de eu ter que trocar de vagão no trem, porque não suportava o mau cheiro de um dos passageiros. Não foram nem de longe meus melhores momentos piedosos. Cada vez em que isso aconteceu, pensei como é que outro ser humano podia ter um odor tão repugnante. Senti vergonha da minha repulsa e segui viagem com o estomago embrulhado. Longe da fonte de mal-estar.

Com os velhinhos é pior. De modo geral, eles resistem a um bom banho. Junte-se a isso a dificuldade de se virarem sozinhos e terem que lavar as próprias roupas e o resultado não é dos mais agradáveis. No meu bairro, há um supermercado que é o campeão da turma que tem ‘alergia’ de banho. Tem dia que é dose encarar uma fila do caixa. Até entendo que eles são de um tempo em que a maioria das casas não tinha aquecimento central e que encher uma banheira de água quente era um luxo para poucos. Tomar banho no frio não é exatamente um prazer. Hábitos são difíceis de se mudar.

 

GettyImages

 

A turma aqui da Ilha pode até não ser assim tão chegada num banho. Mas, os corretores de imóveis aconselham: não troque a banheira por um chuveiro.  É roubada. Aparentemente, a mudança desvaloriza o imóvel. Casa sem banheira é mais difícil de vender. Quando me mudei para a Inglaterra, morei numa casa sem chuveiro. Havia um chuveirinho na banheira, mas a mangueira era curta e a água saía sem muita pressão. Lavar os cabelos era um daqueles exercícios de yoga em que a professora repete irritantemente: aprenda a relaxar na dor. Contorcionismo pouco era bobagem.

Há os que digam que banho todo dia faz mal para a pele, retira os óleos naturais. Sem falar nos ecológicos, preocupados com o desperdício de água. Mais um drama da modernidade: ser politicamente correto e andar cheirosinho. Bem na minha vez? Um dos melhores prazeres de se hospedar num hotel era ter roupa de cama e toalhas de banho trocadas todos os dias. Agora, é difícil achar um que não apele para a consciência ecológica do hóspede. Só ponha para lavar, se você acha que é realmente necessário. Vamos cuidar do planeta. Na minha vez? Nas minhas férias? Tá bom, lava quando eu for embora. Mas sem banho é duro. Tem hábitos que não mudam só porque a gente muda de continente. 

9 comentários em “Vai um sabãozinho?

  1. Gente, se tomar banho todo dia significa ser suja, eu sou imunda!!! Tomo uns cinco a seis banhos por dia, ao acordar, antes do almoço, no final da tarde, antes de dormir, e… Caso use o vaso, tomo mais um, prq N sei ir ao banheiro e apenas usar papel, kkkk. Deixando de lado tanta exposição, acho que banho deve ser tomado todo dia, e não apenas uma vez, mesmo no frio, mesmo na neve!!!! Não consigo conceber que podendo (porque infelizmente, para tantos mergulhados na miséria, banho não é opção, é luxo!) se banhar várias vezes, alguém prefifra suar, se sujar e mesmo assim se sentir bem.
    Gosto de seus textos!!! Forte abraço.

  2. Gostei. Escreve leve, suave e de forma agradável! O médico do meu filho disse que é, no máximo, um banho por dia. Conquistou a criança.

  3. Não me imagino sem banho, de jeito nenhum!! tomo no mínimo 2 banhos por dia : ao acordar e quando volto do trabalho vou direto para a academia e chegando em casa: banho (lavo a cabeça todo dia tb).
    Não tenho pele ressecada, meu cabelo é forte e macio, tenho uma imunidade ótima (dificilmente adoeço).
    Então, banho para mim além de necessário, é terapêutico. Alivia stress, relaxa….não tem preço.
    Sem ele não fico, nunca.

  4. Interessante. Porém, locais com clima completamente diferente. BH com temperatura de 6 graus centígrados, pessoas reclamando que está um frio de matar, nunca fez tanto frio aqui,etc. Na Ilha é talvez clima de verão. Não dá para comparar.

  5. Há 10 anos atrás eu ia à França a trabalho com relativa frequência. Como sempre seguia minhas regras de higiene normais, tomava um banho de manhã, ao me levantar, e outro a noite, antes de me deitar. Certa vez fui surpreendido com uma notificação do hotel onde eu estava dizendo que era aceitável eu tomar um banho diário, mas dois era incompreensível. Eles tinham um medidor instalado no chuveiro e estavam me alertando que a próxima rodada dupla diária de banhos seria paga. E não era algo barato, algo como 10 euros o segundo banho, para desistimular mesmo a prática. Tive que escolher o melhor horário para o meu banho diário e me contentar.

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