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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Um Mal que Atende pelo Nome de Terrorismo

Uma das estreias mais antecipadas aqui da Ilha, a peça ‘ Harry Potter and the Cursed Child’ (Harry Potter e a criança amaldiçoada) abre para o público no final de julho, no Palace Theatre.  Trata-se de um novo capítulo da saga do bruxo Harry Potter. No mundo fantástico, criado pela autora JK Rowling, Lorde Voldemort é um vilão tão assustador, que não se pode mencionar seu nome. Como se ao dizê-lo em voz alta, o mal pudesse ser despertado.

 

GettyImages

 

Fora do palco, dos livros e da imaginação fértil da autora mais bem-sucedida do momento, um outro Voldemort anda tirando o sono de muita gente: o terrorismo. Tanto que os produtores da nova peça já avisaram para o público: chegue pelo menos com uma hora de antecedência. A segurança vai ser rigorosa, todas as bolsas vão ser revistadas. O incômodo de quem passa pelos aeroportos, mais uma vez chega aos lugares de lazer e diversão. Resignados, nos convencemos de que é melhor prevenir do que remediar.

Quem mora por aqui, na França e em tantos outros países europeus, já está se acostumando (se é que se pode acostumar) com expressões como ‘nível de alerta elevado’, ‘iminente risco de ataque terrorista’, ‘ataque muito provável’ e por aí vai. O ponteiro sobe cada vez que acontece um ataque, como os de Paris e Bruxelas.

Há alguns anos, pouco antes do natal, eu tentava embarcar para o Brasil. O aeroporto estava um formigueiro humano. As filas eram de sentar e chorar. Uma brasileira, que estava na minha frente, se virou e pediu que guardasse seu lugar e que olhasse sua mala por um segundo, enquanto ela ia perguntar alguma coisa para um funcionário da companhia aérea. Nem tive tempo de responder. Assim que ela se afastou um passo para fora da fila, um homem atrás de mim começou a gritar: “Bagagem desacompanhada! Segurança, segurança! ” Era clara a tensão no ar.

O terrorismo, aquele medo de que alguma coisa ruim e sorrateira está prestes a pular em nossos pescoços a qualquer momento, faz parte do menu do dia. Mas, ultimamente, tenho me perguntado o que é terrorismo? Quem tem o direito de qualificar um ato como terrorista ou não? O verbete no dicionário diz que é: violência, ameaça, intimidação ou coerção, especialmente por motivações políticas. Então, além de gerar terror, tem que ter uma conotação política. É isso?

Jo Cox foi covardemente assassinada ontem. Você provavelmente nem sabe quem ela era. Até ontem, nem eu sabia. Ao ler seu obituário, fiquei com a impressão de ter perdido a chance de saber mais sobre quem ela era, enquanto ela ainda andava e respirava neste plano. Jo era membro do Parlamento Britânico pelo partido trabalhista. Tomou posse no ano passado. Apesar de novata em Westminster, ela ia deixando sua marca na defesa dos direitos humanos e justiça social. Antes de se eleger, trabalhou durante anos para a Oxfam, que é uma das maiores instituições de caridade do mundo. Opera em mais de 90 países, combatendo a pobreza.

Por falar abertamente em defesa dos imigrantes, batalhar para que este país recebesse mais refugiados sírios, por ter se recusado a votar para autorizar os bombardeios na Síria e por fazer campanha pela permanência desta Ilha na Comunidade Europeia, ela era constantemente ameaçada. Mas não se intimidava.

O voto aqui é distrital. O que significa que cada região elege seu parlamentar. Faz parte do trabalho dos membros do parlamento visitar e atender regularmente os eleitores de sua região, o que em inglês eles chamam de clínica. Pois ontem, Jo Cox estava dando plantão na clínica, perto da cidade de Leeds, numa biblioteca local. Ao sair, foi atacada por um inglês, branco, de 51 anos. Os detalhes ainda não estão claros e, a cada minuto, surge uma nova versão da história. Mas testemunhas dizem que o homem a abordou, tirou da bolsa uma arma antiga e atirou duas vezes no rosto de Jo. Em seguida, usou uma faca de caçador, para esfaqueá-la várias vezes. Durante o ataque ele gritava: ‘Put Britain First’ (ponha a Grã-Bretanha em primeiro lugar).  

Thomas Mair foi preso minutos depois, ainda com a arma em suas mãos. Parece que ele tem um histórico de doenças mentais e que era simpatizante de grupos de extrema direita como o racista e xenófobo Britain First, cujo lema é ‘Put Britain First!’.

22 de maio de 2013. Dois mulçumanos de descendência nigeriana: Michael Adebolajo e Michael Adebowale atacaram e mataram covardemente um soldado britânico, que voltava para o quartel numa rua do sul de Londres. Lee Rigby tinha 25 anos e deixou um filhinho de dois anos. Na época do crime, se dizia que o assassinato havia sido um ato terrorista contra um cidadão britânico.

O assassinato de Jo Cox tem sido reportado pela mídia como um crime de ódio. O de Lee Rigby, ato terrorista. Os assassinos de Rigby foram confrontados por uma mulher, que desceu de um ônibus ao ver a carnificina. Eles disseram que haviam matado o soldado, porque ele fazia parte do exército britânico, que mata mulçumanos no Iraque. A frase de Mair, ao executar Jo, também tem uma forte conotação política. Os dois lados do debate do Brexit cancelaram suas agendas em sinal de respeito pela parlamentar. No entanto, não ouvi da boca do primeiro-ministro, do líder do partido de Jo e de nenhum outro político a palavra terrorista. A quem cabe dar nome aos bois?

Não se trata de dizer que um crime é ou foi pior que o outro. Crime é crime e tem que ser julgado apropriadamente. Jo Cox deixou, além do marido Bredan Cox (que também trabalha na defesa dos direitos humanos) dois filhos pequenos. Horas depois do falecimento de Jo, Bredan divulgou uma foto da esposa ao lado do barco em que viviam e uma nota que, apesar de triste, tem a capacidade de resgatar a esperança de dias menos sombrios:

 

“ O dia de hoje marca um novo capítulo em nossas vidas. Mais difícil, mais doloroso, menos alegre, menos cheio de amor. Eu, os amigos e familiares de Jo, vamos trabalhar a cada momento de nossas vidas, para amar e nutrir nossos filhos e lutar contra o ódio que matou Jo. Jo acreditava em um mundo melhor e lutou todos os dias de sua vida com uma energia e entusiasmo pela vida, que esgotaria a maioria das pessoas. Ela gostaria que, acima de tudo, duas coisas acontecessem a partir de agora: que nossos filhos preciosos sejam banhados em amor e que todos se unam contra o ódio que a matou. O ódio não tem credo, raça ou religião. É venenoso. Jo não tinha nenhum pesar sobre sua vida. Ela viveu cada dia ao máximo.”

 

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3 comentários em “Um Mal que Atende pelo Nome de Terrorismo

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