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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Maternidade no Congelador

Toda manhã aqui nesta ilha, duas em cada três mulheres (entre 20 e 24 anos)  mandam a pílula goela abaixo, sem nem pensar muito no assunto. De fato, 70% das mulheres no Reino Unido já tomaram o anticoncepcional em algum ponto de suas vidas. É fácil conseguir o medicamento em qualquer farmácia. Basta a receita médica. Um ato tão corriqueiro que a gente se esquece de que já foi diferente.

O ‘pai’ da pílula é um biólogo americano chamado Gregory Pincus. Mas o ‘nascimento’ da droga bem que poderia ser creditado ao encontro do cientista com duas mulheres poderosas e determinadas na metade do século vinte.

A mãe de Margaret Sanger morreu aos 50 anos, depois de ficar grávida 18 vezes. Diz a história que Margaret teria acusado seu pai, ao lado do caixão, de ter provocado a morte da mãe, por ela ter tido tantos filhos. Margaret estudou enfermagem e sonhava com uma pílula mágica para prevenir gravidez indesejada. Assim como Pincus, Margaret era uma pioneira. Ela foi responsável pelo termo controle de natalidade, em 1914. Em 1916, abriu a primeira clínica de planejamento familiar nos Estados Unidos e foi presa por distribuir material com informações sobre métodos contraceptivos.

Katherine McCormick era outra pioneira. Foi a segunda mulher a se formar no MIT (Massachussetts Institute of Technology), uma das melhores universidades do mundo. Ela se casou com um milionário, que acabou ficando doido e coube a ela administrar o império do marido. McCormick era uma feminista cheia da nota e interessada em planejamento familiar.

A ideia de se produzir um anticoncepcional era muito mal vista nos Estados Unidos da era McCarthy (1950/1956). Querer controlar o número de nascimentos era coisa dos vermelhos, os comunistas. A indústria farmacêutica era reticente em investir nas pesquisas, pois considerava um tiro no escuro, que poderia ser potencialmente perigoso. As universidades também não queriam arriscar suas reputações em uma pesquisa cercada de controvérsias.

Margaret Sanger foi a ponte entre Pincus (ciência) e McCormick (dinheiro). A milionária teria doado mais de 12 milhões de dólares para financiar as pesquisas do anticoncepcional. A nova droga foi testada primeiro em mulheres de Porto Rico e do Haiti.

 A pílula chegou a esta ilha em 1961. Inicialmente era prescrita somente para as mulheres casadas e que já tinham filhos. O governo não queria incentivar ‘o amor livre e a promiscuidade’. Até 1974, as solteiras tinham que fingir que eram casadas para conseguir o contraceptivo.

 

70% das mulheres britânicas já tomaram a pílula / GettyImages

A primeira geração do medicamento tinha em média quase o dobro de estrogênio e dez vezes mais progesterona do que as disponíveis no mercado atualmente. Muitas mulheres reclamavam de ganho de peso, dores de cabeça e enjoo. Descobriu-se mais tarde, que as primeiras versões do anticoncepcional aumentavam o risco de câncer e trombose. Mesmo com todos os desacertos, Valerie Beral (uma professora de Oxford e estudiosa da pílula) acredita que o contraceptivo ‘foi para a saúde da mulher, a coisa mais importante da segunda metade do século vinte’. Entretanto, quando foi introduzida no mercado, a pílula não enfrentou somente  resistências morais e religiosas. Alguns profissionais da área de saúde questionavam se era ético medicar mulheres saudáveis.

Apple e Facebook anunciaram recentemente que vão subsidiar os custos do congelamento de óvulos de suas funcionárias, que quiserem adiar a maternidade. Nas duas empresas, cerca de 70% dos funcionários são homens. Com o ‘agrado’, elas esperam atrair mais mulheres para seus quadros.

 Congelamento de óvulos não é nenhuma novidade. Inicialmente o tratamento era oferecido a pacientes de câncer, que corriam o risco de infertilidade por causa da quimioterapia. Contudo, a prática vem crescendo nesta ilha. Só no ano passado houve um aumento de 400% no número de mulheres que congelaram os ovos, uma espécie de caderneta de poupança da fertilidade humana. Como no caso da pílula, profissionais da área de saúde e líderes religiosos questionam se é ético submeter mulheres saudáveis e provavelmente férteis a tratamentos de saúde, que podem fazer com que essas pacientes acabem de fato doentes.

 

‘É como ter TPM todos os dias da sua vida’. Assim uma amiga próxima descreveu o tratamento para que seu corpo produzisse mais óvulos, na esperança de que eles fossem fertilizados e produzissem o filho, que ela tanto desejava. As mulheres, ao contrário de outros mamíferos, não produzem muitos ovos todo mês. O sucesso da fertilização em vitro depende de uma série de fatores: em primeiro lugar, a idade da mulher. Também conta se ela fuma, bebe. Se é obesa ou muito abaixo do peso. Mas em geral, o índice de sucesso de cada óvulo é de cerca de 6%. Por isso, são necessários entre vinte e trinta ovos para que a mulher tenha alguma chance de engravidar. Para que a ‘colheita’ de ovos valha a pena, a candidata se submete a um tratamento que estimula o corpo a produzi-los em maior escala. Como em qualquer outra intervenção médica, tem seus riscos para a saúde.

Pesquisando para este post, acabei encontrando um debate muito interessante na TV Al Jazeera. De um lado, a católica Josephine Quintavalle, diretora da Corethics – uma entidade que questiona os dilemas éticos da reprodução humana. Do outro, Dominic Stoop, um ginecologista, diretor do centro de medicina reprodutiva de uma universidade em Bruxelas. Ambos tinham argumentos fortes sobre o assunto.

Para Josephine, a discussão está no lugar errado. Segundo ela, a sociedade devia questionar mais as condições de trabalho da mulher; elas deveriam ter a oportunidade real de desenvolver uma carreira ao mesmo tempo em que ‘produzem’ uma família. Depois dos 35 anos de idade, a fertilidade feminina despenca. Ao invés de tentar comprar mais tempo, segundo ela, o debate deveria estar focado não em adaptar a biologia à sociedade e sim o contrário. Ponto para Josephine. Mas, na prática, o quão realistas são suas aspirações?

O ginecologista encara o assunto como medicina preventiva. Ele revelou que 80% das mulheres que procuram sua clínica na Bélgica são solteiras. Dr Stoop acredita que as mulheres não estejam adiando a maternidade apenas para cuidar de suas carreiras profissionais. Para ele, o principal motivo alegado por suas pacientes é de que elas ainda não encontraram o homem ideal. Aí é que a discussão começa a ficar mais interessante.

Apesar de todas as restrições ao uso da pílula na década de 60 neste lado do planeta, o número de usuárias subiu de 50 mil para um milhão entre 1962 e 1969. Hoje mais de 3.5 milhões de mulheres fazem uso do medicamento nesta ilha – 100 milhões ao redor do mundo. Ou seja, havia e ainda há uma demanda enorme pelo produto. Cinquenta e poucos anos após a invenção do anticoncepcional, a pílula é frequentemente acusada de promover promiscuidade, aumentar o número de doenças sexualmente transmissíveis (despreocupados com uma gravidez indesejada, os casais se importam menos em prevenir as DST), além de destruir famílias e casamentos.

Talvez o maior legado da pílula tenha sido a independência feminina. É claro que existiam outros métodos anticoncepcionais, mas não eram tão confiáveis e dependiam da boa vontade masculina. Sexo antes do casamento era um risco absurdo para a mulher. Até a invenção do contraceptivo oral, os casais se casavam mais cedo. As mulheres engravidavam logo, tornando quase impossível um investimento na carreira profissional. E se é para ficar em casa cuidando de criança, para que estudar?  Esse cenário mudou e todo mundo sabe disso.

A mulher, que estuda mais e investe na carreira, é mais seletiva. Ela quer um parceiro que, sem trocadilhos, seja páreo para ela. Esta é uma das possíveis explicações para o fato de que as mulheres estejam achando mais difícil encontrar o homem ideal. E se esse ‘encontro’ estiver mais difícil porque os homens estão menos disponíveis?  Na década de 50 no Reino Unido, apenas um em cada cem adultos dividia a mesma casa com outro adulto sem ser casado. Hoje em dia este número caiu para um em cada seis. A bola está com as mulheres. Justo ou não, existe a noção de que se ela engravidou, foi porque não se cuidou. Os homens já não se sentem obrigados a casar para ‘corrigir um malfeito’. Também não precisam se casar para se relacionar sexualmente com as namoradas.

Outro dia, li a história de uma alemã de 65 anos grávida de quadrigêmeos, graças a um tratamento. Este tipo de notícia cria a falsa impressão de que a tecnologia controla a biologia. Para os casais que tiveram filho, ajudados por técnicas de reprodução em vitro, a afirmativa acima é a mais pura verdade. Mas tem limite.

A caderneta de poupança da fertilidade é um investimento de altíssimo risco. Um risco que o Dr Robert Winston, especialista em fertilidade, desaconselha. Para ele, ainda não está claro o índice de sucesso do congelamento (os óvulos podem passar até 10 anos no nitrogênio líquido). Além do mais existe uma chance muito alta de abortos e ainda não é possível prever se os bebês vão desenvolver doenças, que ainda não conhecemos. Nada é garantido.

A mulher, que procura uma clínica para congelar os óvulos, quer ter mais controle sobre seu corpo. Se é certo ou errado essa é uma questão muito íntima. O que não pode acontecer de jeito nenhum é a mulher se sentir obrigada por seu empregador a tomar essa decisão. Ela deve ser informada sobre riscos e chances de sucesso.

Recentemente,  li a notícia de que cientistas japoneses conseguiram que um peixe fêmea produzisse espermatozoides. Sei lá se é a última pegadinha da internet. Se não for, a discussão no futuro pode ser bem diferente.

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