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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Estrela da Neve

Desde 2001, o dia dois de fevereiro ganhou um sentido novo para mim. Foi o dia em que recebi o diagnóstico de câncer. Já faz tempo que essa data não me assusta mais, que não ando como se tivesse uma espada sobre a minha cabeça e já não sinto que fazer planos seja incrivelmente doloroso. Mesmo assim, faço questão de não me esquecer desta data. É como um segundo aniversário (não, não gosto de envelhecer em dobro, é só uma metáfora). Sempre gostei de aniversário. De celebrar a vida. Então, por que não comemorar? 

O ‘Da Ilha’ tem alguns textos ‘Da Gaveta’*. O de hoje é um deles… 

‘Dia dois de fevereiro de 2009. Nevou para chuchu aqui neste canto do planeta. Você deve ter visto na tv. A meteorologia já tinha cantado a bola na véspera e, quando acordei, fui direto olhar pela janela. Parecia cenário de conto de fadas; tudo confeitado de branco, árvores, telhados, o asfalto. Para completar, ainda nevava. Os flocos de gelo iam preenchendo os espaços vazios, onde antes só o ar existia. Fui correndo tirar o Ian e a Anna da cama. Nos empacotamos e fomos para rua. Foi uma delícia ver os primeiros passos da menina na neve fofa, que chegava até os joelhos dela. 

Nos fartamos na neve às gargalhadas. Vizinhos, que nunca tinham se falado antes, conversavam animados. Crianças corriam jogando bolinhas de neve. Nós achamos que fazer só um boneco de neve seria munhecagem. Fizemos logo um casal. Teria sido uma família inteira, se não fossem os nossos dedinhos do pé começarem a doer de frio.  Entrar em casa foi outro prazer. Tudo quentinho, roupas secas, comida gostosa na mesa. Corações aquecidos.

 

Quando dividi essa experiência com uma amiga que sabe das coisas, ela me deu de presente suas palavras, que melhoraram muito a minha história. Espero que ela não fique chateada com a publicação desta carta linda, que  me deixou emocionada. Minha amiga escreveu:

Imagina você subindo um rio. Subindo a pé. Tipo uma caminhada dentro da água. Caminhando assim na beira do rio. Um rio sem fim…

Daí você vai subindo….Sempre contra o sentido da água. A água bate assim no meio da perna. Ela não te derruba, mas você tem que fazer um certo esforço para ficar de pé e continuar andando.

De vez em quando, você toma uns capotes… De vez em quando você consegue andar mais rápido….De vez em quando você volta pra trás.  Tem uns afogamentos. Umas enchentes de vez em quando. Tem de tu-do nesta subida.

O rio é a vida. Daí, você vai subindo, andando, fazendo esforço e de repente…. Opa!…você vê um pedrinha brilhando…um diamante….

Assim enterrado naquele mundão de areia… com a água passando por cima.  Uma preciosidade! Uma raridade! Como são os diamantes, né?

Como é a felicidade.

Você continua subindo…. Opa! Outro brilhante no meio daquele areião. No meio daquele tantão de água.

E você vai subindo.

Tem gente que vê muitos, tem gente que não vê nenhum, tem gente que vê poucos. Tem gente que não vê uns enormes.

Tem gente que vê uns quase invisíveis.

Tudo depende de prestar atenção! Saber fazer a distinção entre os grãos de areia e o brilhante.  Esta parte é difícil demais.

Uma coisa é certa. Tem poucos brilhantes no meio daquele areião.  Senão, não seria brilhante. Senão, não seria areia.

Ao longo desta caminhada, você pode recolher estes diamantes e ir guardando dentro de um saquinho. Um saquinho que você guarda perto do coração. Também tem a opção de deixá-los quietinhos lá na areia e olhar para trás, de vez em quando, e ver aquela trilha de pequenos pontos brilhantes.

Pessoalmente, gosto de recolher os meus. Vou botando em um saquinho. Tenho alguns. Não sei falar se é muito ou pouco.

Mas eu consegui ver alguns.

Acho que ontem você capturou um diamante do tamanho de um que tem na Torre de Londres!  Acho que é o maior do mundo.

É o Estrela da África!

Vou batizar o seu de Estrela da Neve! Será? Você pode rebatizá-lo. É seu! ”

 

Na noite do 2 de fevereiro,  me lembrei de um outro dia de Iemanjá. No dois de fevereiro de 2001, recebi o diagnóstico do câncer que me comia as tripas. Cru. Cruel. Oito anos antes do dia da grande nevasca, não senti que tivesse recebido uma pena de morte, senti que já tinha morrido mesmo. Deve ter sido um dia de verão em São Paulo. Não me lembro. Só ficou a sensação de um manto asfixiante e espesso de uma tristeza absoluta. 

Aquela neblina espessa e modorrenta dos primeiros dias dos meus 8 anos já se dissipou há tempos. Me esforço para não esquecer a minha lição barroca, quando o sapato aperta. A velha história de viver o dia, porque, no final das contas, a gente perde muito tempo precioso querendo antecipar tudo, prever tudo. Nem se eu tivesse o dom visionário de um Da Vinci ou a imaginação do melhor dos roteiristas, eu teria vislumbrado um dia tão mágico e especial como o de ontem.

Só queria que você soubesse.’

 

(Inglaterra, 3 de fevereiro de 2009)

 

* Da Gaveta:Toda redação de TV tem o que o jargão jornalístico chama de ‘matéria de gaveta’. Reportagens, digamos nem tão factuais assim, que o editor-chefe ama em dias fracos de notícias. O Da Ilha também tem suas histórias Da Gaveta. São impressões de quando eu ainda era novata na terra da Rainha.

 

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14 comentários em “Estrela da Neve

  1. Espetacular, sou sua seguidora, sempre viajo, sinto e imagino toda sua vivencia! Sua escrita é fantástica, a tal ponto de nos embalar.
    Sempre bela, sempre Duda, mesmo eu preferindo a Auá rs
    Beijos

  2. Seus textos sao brilhantes, voce me inspira, sou sua seguidora. Passei a sempre me referi a Inglaterra, como a ilha, por conta do seu blog. Parabens!!!

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